Exercícios de Matemática, Caciques & o Vídeo

12 Fev 2019 / 02:00 H.

1. Disco: já tem uns dez anos que saiu o primeiro álbum dos Beirut. Ouço tantas vezes “Gulag Orkestar” que parece que foi ontem. Chega agora este “Gallipoli”. Se no primeiro viajámos embalados por pormenores da música balcânica, chegamos a este carregado de apontamentos da música mexicana. Zach Condon you did it again.

2. André Escórcio foi meu treinador durante uns tempos em que pratiquei natação. Mais tarde, tornou-se amigo da minha mãe e visita de casa. Sempre o tive como homem de convicções e, como tal, um pouco teimoso. Gosto de pessoas assim. Também o sou, principalmente quando acho que tenho razão e os argumentos dos meus interlocutores não me convencem.

Escórcio sempre teve o “defeito” de ser socialista. Convicto. Como em tudo a que se dedica, fá-lo visceralmente. Foi assim com o desporto, é assim com a política.

Não quero aqui discutir os actos de um vice-presidente do PS, em frente a um computador. A vida privada só ao próprio diz respeito e quem sou eu para ajuizar das pancadas de cada um. Acho até abusivo que se tenha filmado um acto privado, sem autorização do interveniente. Creio eu.

No meio de tudo isto, há só uma questão que me mexe com o sistema nervoso. É que tudo se passa num espaço público, dentro da sede de uma junta de freguesia, onde era suposto um eleito pelo povo ter comportamento adequado. E não, não sou de maneira nenhuma moralista. Naquele gabinete atendem-se pessoas, tratam-se assuntos que dizem respeito a uma comunidade. É um templo da democracia e não um sítio para andar a chocalhar os tintins.

O histórico socialista, ao enviar o cartão à direcção regional do PS, com o texto que escreveu, estava claramente a pressionar os responsáveis madeirenses para que tomassem uma posição. Entre Escórcio e o Vice, a direcção socialista escolheu o seu Vice-Presidente. Entre o ex-deputado e um cacique de pacotilha, que não diz batatas duas vezes, os dirigentes socialistas escolheram este último.

E assim vai este mundo pequenininho.

3. O Presidente da República deve, entre outras coisas, ser o fiel da balança do sistema político português. Quer-se que seja moderado e que exerça magistratura de influência e não que deite gasolina para a fogueira. Se foi ao Bairro da Jamaica, quando de lá saiu, devia ter ido à esquadra da PSP do Seixal. Até porque está a decorrer um inquérito para apurar o que realmente se passou. Isso é que era equilíbrio. Isso é que era ser presidente de todos os portugueses. Ou, então, resistir à tendência que tem de ir meter o nariz em tudo o que mexe...

Este Presidente da República não é o Marcelo em quem votei.

4. Chorei de ir às lágrimas.

Em Tancos havia um sistema obsoleto de videovigilância com câmaras que não funcionavam e um sistema de gravação em cassete de vídeo. Repito: cassete de vídeo. Tenho ideia que os mais novos que me lêem (se é que os há) nem sabem o que isso é. Ora então, até a 2016, pelo menos, todos os dias se trocava a cassete num vídeo gravador também ele avariado.

Não digam que não é de rir e chorar por mais...

5. A Rua Imperatriz Dona Amélia foi toda escavacada por causa das obras do Savoy. Nem podia ser de outra maneira. Obras são obras e têm destas coisas. O engraçado nesta situação é que a entidade que construiu o hotel, a AFA, a entidade que escabaçou a rua, conseguiu que a Câmara Municipal do Funchal assumisse o arranjo da mesma. Até aqui, podendo concordar ou não com isto, admito que pode ter havido um qualquer acordo que levasse a que as coisas fossem assim.

O engraçado é que o concurso aberto pela CMF para a recuperação da rua, imagine-se, foi ganho... pela AFA.

6. O que se leu nas páginas deste matutino, na 6ª feira passada, a propósito da diminuição de verbas para os cuidados primários, representa, não só uma enorme irresponsabilidade, como mais um prego no caixão do Sistema Regional de Saúde. Simples e grosso de modo a que toda a gente perceba: reduzir nos cuidados primários é reduzir no evitar a doença. É potenciar o risco de adoecer amanhã. É virar as costas a ter, no médio prazo, uma população saudável. Isto tem uma dimensão tal que, sem cuidados primários, nem vale a pena fazer hospital novo nenhum. No dia em que ficar pronto já não vai chegar para as encomendas.

Estamos a construir a pirâmide ao contrário. O novo hospital, que devia estar no topo da pirâmide sendo o corolário de uma alteração de paradigma, não pode ser visto como um paliativo. Deve ser o resultado de um trabalho feito a montante que faça com que este seja uma unidade de rotação rápida ao qual se recorre no limite.

Retirar, diminuindo, os cuidados primários da equação, é ter no futuro uma população mais propensa à doença.

O momento é de escolha: ou cuidados primários que proporcionem uma população saudável no médio/longo prazo (e logo mais barata em termos de gastos futuros na saúde) ou isto que temos. Que não é nada!

7. Entretanto, pretendeu a Secretaria da Saúde explicar os números... ele é tabelas que demonstram que as consultas de cuidados primários nos Centros de Saúde, desde 2014, têm vindo a aumentar ano após ano. Fica então a pergunta: se os números têm vindo a aumentar (e a ser assim, quanto a mim, bem) por que carga de água é que, neste ano, se prevê que baixem? É que isto não é, pura e simplesmente, explicado no comunicado. Quem pretende, então, alarmar quem?

Mas que raio de EXERCÍCIO DE MATEMÁTICA faz a Secretaria para baixar os números de consultas dos cuidados primários?

Mais, e em face do escrito no comunicado, reconhece a Secretaria da Saúde que no dia 8 de Fevereiro, um mês e 8 dias depois de começar um ano sem vícios, vai ser preciso fazer um Orçamento Rectificativo, provavelmente depois das eleições, para suprir necessidades do Sesaram?

Os orçamentos rectificativos fazem-se em condições excepcionais, quando o imprevisto surge e obriga a que se reequacione os procedimentos orçamentais. Não é uma ferramenta de gestão financeira corrente, é um mecanismo de rectificação como indica o seu nome. No início de Fevereiro, estar a dizer que se vai fazer um Orçamento Rectificativo, não tem pés nem cabeça. Fica assim desde já demonstrado que “o melhor Orçamento de sempre” é afinal só mais um Orçamento, porque se fosse mesmo bom não precisava de qualquer rectificação.

Das duas uma, ou estamos perante um EXERCÍCIO DE MATEMÁTICA de desorçamentação ou perante um EXERCÍCIO DE MATEMÁTICA de desinvestimento. Agora a Secretaria da Saúde que escolha.

Não há outra maneira de ver as coisas...

8. Em Évora, o Congresso da Aliança viu aprovar a moção única de Santana Lopes, pois “democraticamente” não foi admitida ao debate uma outra, subscrita pelo professor da UMA, Celso Nunes. Nas várias vezes que falou o “vieux terrible” (sim, porque já passou há muito a idade de ser “enfant”) foi socializante e estatista. Acusou o Governo/Estado de não cumprir com o seu papel de gastador de dinheiro alheio. E a táctica que usou, foi a tão comum aos do Estadão quando não estão no poder: a crítica pela crítica. Li as duas moções ao Congresso. A aceite e a “dispensada”. A de Santana é um arrazoado de lugares comuns que nada dizem e a de Celso Nunes mais parece um programa de governo, também ela cheia de mais Estado.

Um pé na Europa e outro fora a ver no que isto dá. Um piscar de olho para o PSD Madeira não vão as coisas lhe correr de feição por cá. Uma mão no lombo de Marcelo e outra pronta a o empurrar se o “selfie made man” escorregar. Apelos a Deus, o SNS, a violência doméstica, os impostos e Santana. Muito Santana, num Congresso que não queria que fosse de um homem só, mas que o foi.

Ao Joaquim José de Sousa desejo felicidades no agarrar deste projecto.

9. “A renúncia é a libertação. Não querer é poder” – Fernando Pessoa.

Nuno Morna

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