O triunfo dos “idiotas”

23 Set 2019 / 02:00 H.

Numa noite eleitoral em que todos perderam, o futuro tem tanto de incerto como de promissor, mesmo que, por ironia do destino, tudo possa vir a ser definido em Lisboa, pelas cúpulas partidárias às quais alguns juraram não estar agachados. Até porque há quem admita que o próximo Governo Regional pode estar, em parte, dependente dos resultados para a Assembleia da República e respectivos efeitos colaterais.

O PSD deitou a mão, como nunca, a tudo o que tinha para manter a maioria. Sem sucesso. Perdeu três mandatos, não cativou novos eleitores e pela primeira vez em 43 anos deixou de ter poder absoluto. Acabou-se o reinado.

O PSD entregou-se desalmadamente às obras que inaugurou e nos últimos tempos agarrou os militantes em fuga, ao abrir concursos e ao fazer promoções, ao renovar comissões de serviços e ao definir complementos, ao estabelecer contratos-programa com meia ilha e ao atribuiu louvores, ao ordenar aquisições e mandar pagar indemnizações, ao celebrar acordos de cooperação, ao estabelecer comparticipações financeiras e a dar nas vistas.

O PSD optou pelo pragmatismo, mandando à fava uma renovação prometida e que se revelou incómoda para os hábitos ancestrais, para os interesses instalados e para o jardinismo resistente. E ontem, como há muito não se via, transportou gente às urnas, pressionou a vários níveis e colocou secretários regionais como porteiros nas assembleias de voto.

O Governo Regional fez pela vida. O PSD fez o resto. E mesmo assim, está obrigado a negociar, a dialogar e a ceder, expedientes que estranha.

Na pior das hipóteses, mesmo que pouco plausível, pode nem ser governo. Basta que todos os outros derrotados da noite - o PS ficou aquém do objectivos iniciais, mesmo triplicando o número de mandatos, enquanto CDS, JPP e CDU perdem mandatos - se juntem. Ou que surjam dissidências perante a dimensão das exigências.

Para a história fica o triunfo dos “idiotas”, insultados por Miguel Albuquerque antes do veredicto: 86.742 dos 143.190 votantes não votaram no PSD. Aliás, o eleitorado sempre sábio e soberano foi o único vencedor de um dia histórico, em que a taxa de participação subiu seis pontos percentuais face a 2015.

Ricardo Miguel Oliveira
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