Do que mais precisa o Funchal

Falta um plano e projetos estruturantes que indiquem qual o caminho pretendido

03 Dez 2019 / 02:00 H.

Há 100 anos a primeira impressão de um qualquer turista acabado de chegar ao Funchal seria a de uma ilha encantada, que surge milagrosamente do oceano e que convida ao repouso e à admiração de panorâmicas inesperadas. Quintas, chalets pitorescos, jardins e parques abundavam, fazendo do Funchal um destino de incomparável beleza. O Funchal funcionava também como porta de entrada para uma ilha de montanhas densas, quase impenetráveis, ravinas de um verde que se acreditava perpétuo, quedas de água que se despenhavam de grandes alturas e que também pareciam intermináveis. Devia ser realmente impressionante a beleza natural da ilha e o ambiente urbano da cidade.

O passar do tempo e a miopia muitas vezes causada pelo desígnio da modernidade, fizeram desvanecer muitas destas realidades. A indiferença e o desleixo por alguns marcos caracterizadores da nossa cidade, algum egoísmo e uma tendência irracional para adotar modas que em nada se adequam à nossa identidade, têm destruído sem hipótese de retorno um património que deveria ser preservado a todo o custo. É certo que nunca na história desta ilha, o Funchal albergou tanta população. Esta tendência que é crescente, tal como acontece no resto do mundo, coloca desafios muito importantes, porque para além de ser necessário considerar a população que se pretende fixar na cidade e todas as infraestruturas necessárias, é preciso conjugar tudo isto com o fator Turismo.

Estes desafios sempre foram colocados ao longo dos tempos. Na primeira metade do século passado, por exemplo, o Funchal era uma cidade deitada num berço de flores, com elementos de natureza espalhados um pouco por toda a cidade. No entanto, a sua população praticamente não tinha água canalizada, e muitos dos esgotos corriam a céu aberto para as ribeiras que atravessam a cidade. A maior parte das estradas estavam em muito mau estado, mesmo a Estrada Monumental que sempre foi uma das vias mais usadas pelos turistas, e algumas dessas estradas estavam muitas vezes intransitáveis pelos constantes desmoronamentos de muros ou pelas grandes poças de água que se formavam sempre que chovia.

Atualmente os desafios são bem distintos. Parece-me que a situação presente obriga à criação de planos urbanísticos e projetos capazes de dar resposta à necessidade de termos um Funchal mais homogéneo, equitativo e agradável para todos os Funchalenses e Turistas que nos visitam. Para isso, seria desejável que se deixasse para trás a receita da modernidade a todo o custo e que se comece a olhar para o futuro de uma forma mais audaz e inteligente, deixando cair o principal critério que tem prevalecido durante os últimos anos, que é o de satisfazer os interesses e objetivos de um determinado coletivo político em detrimento do que deveria ser o progresso na sua verdadeira acessão da palavra. A cidade tem de ser vista como um fenómeno social, determinada por estilos de vida e condicionantes económicas, pelo que não pode sobreviver sem um projeto claro e bem definido. E é justamente isto que tem faltado ao Funchal nos últimos anos. Falta um plano e projetos estruturantes que indiquem qual o caminho pretendido para melhorar o ambiente urbano e a qualidade de vida na cidade. Falta a definição de uma visão mais completa e abrangente, que não se limite a responder de forma dispersa a situações que vão surgindo sem aproveitar as sinergias que se poderiam gerar para resolver alguns problemas urbanísticos, ou para preparar a cidade para os desafios que se avizinham em termos de acessibilidades e transporte.

Luís Pedro Branco