De mão estendida

Vivemos numa ilha onde há poucos anos ainda se matava por um pedaço de terra. O sentimento de posse agiganta-se numa terra de extensão limitada, onde a densidade populacional obrigou a encontrar um chão para que as pessoas construíssem o seu tecto

07 Mar 2018 / 02:00 H.

A ilha por vezes pode ser ingrata, mas a determinação do Homem faz com que cada etapa seja ultrapassada com esforço, muitas vezes pincelada por gotas de sangue, suor e lágrimas. A condição de residir num cantinho do paraíso implica que estejamos preparados para, mais dia menos dia, conhecer o reverso da medalha. É a tomada de consciência das nossas escolhas perante as possibilidades que temos à mão, sejam elas as mentalidades mesquinhas que abundam numa sociedade, a pequenez da visão daqueles que nos governam ou querem governar, ou o medo de abrir asas e conquistar novos horizontes.

Mas a ilha também pode ser ingrata naquilo que nos permitiu usurpar. Abrimos a rocha, escavámos montanhas e aproveitámos cada centímetro de terra para melhorar as condições de vida individuais e coletivas.

Olho para a encosta serpenteada por uma estrada alcatroada e lembro-me que há 30 anos, naquele mesmo sítio, homens e mulheres subiam a vereda íngreme, acartando material às costas, para ajudar a construir a casinha do vizinho, do primo, ou do irmão, em troca de um copo de vinho, uma laranjada, umas boas conversas e uma tigela de sopa. E naquele “abica burros” surgiu uma habitação modesta de um casal que precisava de um lar para constituir e criar família.

Vivemos numa ilha onde há poucos anos ainda se matava por um pedaço de terra. O sentimento de posse agiganta-se numa terra de extensão limitada, onde a densidade populacional obrigou a encontrar um chão para que as pessoas construíssem o seu tecto. Felizmente, já não se vive em grutas perigosas e assassinas, nem em barracas nas margens das ribeiras. Os dramas habitacionais do século passado pertencem à história, mas o Homem continuou a querer domar e a conquistar a ilha, escavando, construído, plantando, inventando mil e um sítios para se fixar. Com pouco ou muito respeito pela Natureza, o certo é que na senda desta expansão, nem sempre tivemos consciência dos prós e dos contras das nossas opções e as conquistas do vale à montanha e do mar à serra têm as suas consequências.

Vem isto a propósito do último temporal. Numa das muitas reportagens efetuadas sobre o assunto, houve um testemunho que me chamou a atenção. Um homem queixava-se do «abandono» que sentiu durante o temporal. A dada altura, pensei que, se calhar, o indivíduo tinha corrido risco de vida, ou alguém da sua família teria esperado horas intermináveis por socorro. Mas não. A Proteção Civil cumpriu o seu dever. Afinal, o homem queixava-se que as suas plantações tinham ficado destruídas e que esse problema só seria resolvido com indemnizações. Dinheiros públicos de todos nós.

Numa outra fonte de informação, deparei-me com um pedido de ajuda desesperado de alguém que perdeu o negócio à beira-mar e apelava à solidariedade do povo para a reconstrução do bar.

Pus-me a pensar nos seguros, mas após algumas chamadas telefónicas, percebi que é possível ter um seguro que cobre danos por quedas de aviões, mas quanto aos danos provocados pela fúria do mar e pelo mau tempo, isso já é muito complicado.

- Não esperes milagres...

Na agricultura o caso também é bicudo. Nem todas as produções podem ser cobertas pelo seguro. Então e qual é a solução que não envolva agravar o estado de subsidiodependência a que chegamos?

- Pensar dá muito trabalho. Deixa lá isso...

Então e as associações? Qual é o papel delas no meio disto tudo? Porque não criam um fundo de maneio para emergências desta natureza, através de quotas pagas por aqueles que, um dia, podem vir a precisar? Agricultores, empresários e todos aqueles organismos que existem para representar os sectores porque não arregaçam as mangas e começam a acautelar o futuro? As intempéries não são propriamente desconhecidas da nossa terra e dizem os entendidos na matéria que a situação só vai piorar daqui para a frente. Se assim é, porque razão se continua de mão estendida, em vez de se pensar em minimizar o problema com meios próprios? E o Governo porque não cria um “Plano Estratégico” para incentivar a discussão do processo?

- Ahhhh! Isso dá demasiado trabalho...

Mas também é para isso que servem aqueles 760 nomeados que custam cerca de 26 milhões de euros por ano, mais os outros milhares que foram sendo nomeados ao longo das décadas! Nesse “buraco sem fundo” que parece ser a nossa administração pública, há de haver gente que em vez de andar de mão estendida a fundo perdido, arregaça as mangas e faz acontecer. Ou não?

- Quando tens um governante que promete coisas, mas depois diz que têm de ser os de Lisboa a pagar, estás à espera do quê?

Sónia Silva Franco