Rei ou presidente?

06 Out 2019 / 02:00 H.

Eu contava os feriados e dias santos no calendário da cozinha que, naquele tempo, todas casas tinham um com gatos ou cães dentro de um cestinho. Os nossos vinham da padaria ou da loja de ferragens, que o meu pai era freguês frequente de pregos, parafusos, buchas e de quase tudo o que vendiam, fazia stock até. E os calendários tinham muito uso, ali pendurados ao lado das pegas e dos panos de cozinha, era lá que a minha mãe via se a lua estava boa para podar as roseiras e eu contava os dias para os feriados.

A implantação da República chegava logo ali no início das aulas, mas era dos feriados bons, dos que não obrigavam a subir o beco para ir à missa. Não era tudo o mesmo, nos dias santos metia coisas da igreja que a minha mãe cumpria à risca. O 5 de Outubro dava para respirar, para apreciar o bom tempo com as açucenas cor-de-rosa a pintar o chão entre os pinheiros e os canteiros do jardim forrados ao amarelo e branco das saudades.

Os anos bons, daqueles com sol até meio de Novembro, o feriado da República servia para nos despedirmos do verão, mas sem praia ou banhos de mar. Nisso a minha mãe não cedia, era como as coisas das igreja, isso de ir ao banho começava, com sorte, na Páscoa e acabava a meio de Setembro, antes de ir ao liceu ver o horário. Lembro-me de matutar na palavra implantação da República e lembro-me da minha mãe dizer que era o dia em que tínhamos deixado de ter rei. A princípio, ainda fascinada pelas histórias dos princípes e princesas, fiquei triste, não podíamos ter um casamento daqueles como em Inglaterra.

Eu, assim como muitos milhões de pessoas em todo o mundo, tinha visto em direto, via eurovisão, o casamento da Lady Di com o principe Carlos. O vestido, véu, as jóias, a carruagens e os cavalos, aquilo estava feito para impressionar, ainda mais uma miúda de 10 anos que, de História, sabia pouco. Não se podia contar com o Google para tirar dúvidas ou ler um resumo do que, de facto, acontecera num 5 de Outubro, muitos anos antes de nascer, era a minha avó Alexandrina uma criança. Havia os livros dos meus primos, alguns ainda dentro do plástico com que tinham chegado do Círculo de Leitores, mas não tinham uma coleção de História de Portugal.

O meu primo Vítor costumava dizer que, se a coisa desse uma volta – a coisa era a democracia voltar a ditadura –, ia preso. E quando revejo mentalmente os títulos que havia dentro do móvel da televisão dou-lhe razão, foi por isso que li o “Triunfo dos Porcos” aos 12 anos. De História de Portugal havia pouco e, não fosse o livro do 2º ano do ciclo do meu irmão, teria ficado em claro e a lamentar não haver casamentos de princesas como em Inglaterra (a designação certa era Reino Unido, mas no Laranjal encurtava-se tudo para a fórmula mais simples).

Entre o que vinha nos jornais por alturas do feriado e o que estava escrito no livro de História, os republicanos de fato, colete, cartola e barbas pontiagudas não ficavam muito bem no retrato. Ou melhor, a revolução tinha sido boa ideia, que o país na monarquia estava parado, o pior tinha sido depois, mais a I Guerra pelo meio e aquela sucessão de governos, uns atrás dos outros até à falência, uma desgraça. A minha mãe sabia disso, até se lembrava de uns senhores que tinham sido mobilizados para a guerra, assim como tio José que embarcou à pressa para Trinidad y Tobago.

E o meu avô, o pai do meu pai, tinha uma tatuagem no braço por ter estado preso depois de desertar. O meu pai repetia que tinha sido tonto, se soubessem todos que os submarinos alemães iam afundar os barcos no porto talvez a história tivesse sido outra. Homens na guerra, tatuagens na prisão, fugas clandestinas, revolução e contra-revolução, que depois se deu o 28 de Maio, veio o Salazar e mais 50 anos até se dar o 25 de Abril. A minha mãe sabia mais ou menos a cronologia, a minha mãe sabia de quase tudo quando se puxava por ela e a tirava do bordado.

E era melhor um rei ou presidente? A minha mãe, que todos os anos por alturas do 25 de Abril gostava de ouvir o relato daquele dia, dos tanques a entrar em Lisboa e da música do MFA, não tinha dúvidas, que um presidente a gente sempre escolhe e não fica a vida toda no posto.

Marta Caires

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