“Podióóóóóóó chamá-lo?”

05 Ago 2019 / 02:00 H.

1. Livro: Gosto de livros com textos de teatro. É uma coisa que me corre no sangue, embora ande chateado com ele. Tenho uma pequena colecção de textos muito interessante. Dos clássicos à contemporaneidade. Mão amiga fez-me chegar um livro com dois textos fantásticos de João Bilou: “O Centenário da Colectividade” e “Abril... Abril...”. Uma das coisas mais difíceis, nos textos teatrais, é a oralidade. Fazer com que esta resulte natural. É, muitas das vezes, por aí que afiro da “habilidade” do autor. E o João é-o. Dois textos deliciosos onde projecta a sua perspectiva de vida, com a qual podemos concordar ou não. Socorre-se de excelentes textos de grandes autores de modo enriquecedor e despudorado. O livro é da Companhia das Ilhas.

2. Disco: “Fever Dream” dos Of Monster and Men está fresquíssimo pois, saiu há pouco mais de uma semana. É espantoso como um país/ilha pequeno como a Islândia dá ao mundo tanta e tão boa música. Vai rodar a semana toda.

3. Dizia-me um amigo, há dias, que eu usava muito a palavra “porcaria”. Tem toda a razão. Uso. Faço-o para não usar outra — que uso em privado — e que exprime muito melhor o que, muitas vezes, quero reforçar.

A introdução tem a ver com a porcaria que aí vai sobre mais uma escandaleira que assolou o país: as golas do padeiro. Reza a história que um assessor do Secretário de Estado da Protecção Civil promoveu um ajuste directo, depois de consultadas cinco empresas, algumas das quais negam tê-lo sido. Duas delas, são propriedade de pessoas com ligações ao PS. Quem ganhou fez um negócio da China pois fez a proposta mais baixa e, mesmo assim, vendeu o produto ao Estado (que somos todos nós) pelo dobro do preço de mercado. A empresa que vendeu as golas antifumo, que derretem, tem sede num parque de campismo e é propriedade de um senhor que é casado com uma autarca socialista. Atenção que me limito a descrever. Não fiz nenhum juízo de valor... ainda. Uma coisa é certa, a partir de agora, a expressão “ver a mulher do padeiro” assumiu todo um novo significado...

O que vem para o caso é que fico sempre com a sensação de que estas coisas, que vamos sabendo, não nos mostram mais do que a ponta de um enorme ‘iceberg’. Um bloco de gelo monumental de compadrio, nepotismo, favorecimentos e corrupção. São estas coisas e esta gentalha que nos conspurcam a democracia.

E de quem é a culpa disto? É nossa, é de todos nós. Porque deixamos andar, porque não nos preocupamos, porque pouco mais fazemos do que mandar umas propositadas bocas nas redes sociais. Porque gritamos que estamos fartos disto tudo e fazemos-lhes o favor de ficar em casa, não indo votar em alternativas — porque as há — pensando que, assim, deixamos uma mensagem “aos políticos”. Porque no votar limitamo-nos a escolher entre “o mesmo e o mais do mesmo”.

Não era bom que, desta vez, mudássemos alguma coisa, para além das moscas?

4. Por causa do anterior, o Governo Central pediu um parecer à Procuradoria-Geral da República sobre negócios de familiares de governantes com o Estado. Augusto Santos Silva considera que a “interpretação literal da lei” seria de grande “complexidade institucional e social”. Os partidos do arco do poder fazem leis para agradar à populaça e, depois, para não cumprirem o que escreveram e aprovaram, vêm sempre com a desculpa da interpretação. Para esta gente a lei é conforme. Se dá jeito é bom, se não dá que se lixe.

Não sei porquê, mas isto fez-me lembrar o Raul Solnado:

“Está lá? É da Lei? Está aí o Dr. Augusto Santos Silva? Sim... Exacto... O Ministro dos Negócios Estrangeiros... Podióóóóóóó chamá-lo? Agradecido... Tá lá? É o Sr. Ministro? Oh Sr. Ministro, olhe a Lei do IRS não me dá muito jeito... Descontam-me no ordenado... Sim, é parte do meu trabalho... É que, para mim, eu acho que se devia deixar de fazer uma “interpretação literal” da Lei... Para o mês que vem quero ir jantar fora com a patroa e baixava-se aquilo... É que, se a levar outra vez ao MacDonald’s, vou-me lixar com uma carga de “complexidade institucional e social”... O Sr. Dr. já ficou três meses a seco? Ah já? Ahhhhhh... Então sabe do que estou a falar... Já não pode falar mais que vai pó estrangeiro? Então veja como é que eles fazem lá com a Lei... Tá combinado... Mas em relação a este assunto, posso falar com quem?... Com o Xôr Presidente? Então podióóóóóóó chamá-lo?... Obrigado... Xôr Presidente bom dia... Uma “selfie” ao telefone? Já tenho três Xôr Presidente... E mais duas para troca... Eu estou a ligar para o Xôr Presidente pra ver se posso não pagar IVA durante um mês... É que não me dá jeito nenhum por uma questão de “complexidade institucional e social”... Fico com soluços... E depois vem uma azia do caraças... pode ser?... Ah... pois... claro... eu... prontos... fica assim Xôr Presidente... Muito obrigado, mas agora tenho que ir ao WC que me está a dar um ataque de “interpretação literal”... Adeus e até ao meu regresso”...

5. Andam por aí uns quantos que enfermam de uma noção enviesada do que é democracia e, por arrasto, do que é liberdade de expressão.

Defender a liberdade de alguém expressar o que quiser e entender, é isso mesmo, é não colocar nenhuma barreira ao que cada um tem para dizer. Faz parte da democracia, faz parte do ser democrata. Reconheço esse direito a seja lá quem for, independentemente de concordar ou não.

Outra coisa, que complementa a liberdade de expressão e como tal faz parte dela, é o direito que cada um tem de ter opinião sobre a opinião dos outros. Considerando-a o que bem-quiser e entender. Seria estúpido, da minha parte, julgar que todas as pessoas concordam com tudo o que aqui escrevo. Tenho a certeza de que há muita gente que vê nisto um arrazoado idiota e sem sentido. E têm todo o direito de assim pensar, de dizê-lo onde e quando quiserem.

Fizesse caso disso e estava bem lixado. Na página da Iniciativa Liberal é recorrente o insulto, a desconsideração, o desrespeito. Usamo-los como medalhas. E está tudo certo. É assim que deve ser. A liberdade de expressão não pode ser limitada e a mim só me insulta quem quero ou deixo.

A um argumento contrapõe-se outro argumento, a uma opinião responde-se com outra, contesta-se, debate-se, contraria-se, discorda-se, insulta-se e é-se insultado, etc. Isto é liberdade de expressão, isto é democracia.

Quem acha que as coisas ultrapassam os limites e deixam de ser liberdade de expressão (difamação, mentira, etc.) tem o lugar certo para dirimir essas diferenças: os tribunais.

6. “Ah e tal, tu tens a mania que tens sempre razão...” Errado. Tenho a minha razão e os outros terão a sua. Numa discussão, defendo o meu ponto de vista e os outros o seu. Senão, não seria discussão. Tento fazer valer os meus argumentos e os outros fazem o mesmo em relação a mim. Se me provarem errado, mudo de opinião e espero dos outros o mesmo. Uma discussão deve procurar a aplicação dos princípios da dialéctica (tese, antítese e síntese — quando possível). Por isso, este argumento de eu ter sempre razão serve tanto para mim como para os outros.

Mas lá que sou um homem de convicções, lá isso sou!

7. O IMI é assim a modos que uma renda de casa. Se dividido por mês, pagamos um x ao Estado para termos direito a ter a nossa casa. Se a ideia é a de assim criar receita para as câmaras municipais, então não deveriam ser todos os habitantes de um município a pagar? Só pagam aqueles que investiram e decidiram comprar o seu imóvel, porquê? É isto equidade, aplicação de justiça?

8. “Há apenas uma maneira de matar o capitalismo: com impostos, impostos e mais impostos” - Karl Marx

Nuno Morna

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