Ovos com espargos
e uma sericaia para sobremesa

Os passeios são assim, levam-nos da paisagem à história, quase sem tempo para apreender o que se vê e sente.

09 Set 2018 / 02:00 H.

Quando nos fizemos à estrada há menos de uma semana o termómetro do carro marcava 37 graus, mas o calor faz parte e não nos atrapalhou quando subimos a encosta para ver as portas de Ródão, uma garganta por onde corta o Tejo e que é dos lugares mais bonitos onde já estive. As montanhas faziam espelho na água do rio e o silêncio era cortado apenas pelo som das cigarras. E nem os esqueletos calcinados de algumas árvores, restos dos grandes incêndios do ano passado, conseguiram roubaram-me a sensação que tudo ali era muito, demais como cantava Vanessa da Mata no rádio do carro.

Eu tenho muitas vezes essa impressão, de que não vou ser capaz de olhar e perceber tudo o que tenho pela frente, que vou esquecer depressa as ruas estreitas de Marvão e o horizonte que se avistava da varanda da casa alugada por duas noites. Ou os caminhos sinuosos da judiaria de Castelo de Vide, terra de Garcia de Horta. Na sinagoga estão escritos os nomes das vítimas da Inquisição, pois houve um tempo em que, por aqui, nestas aldeias pacatas onde agora se vende souvenirs de cortiça a turistas, pessoas normais eram torturadas e ameaçadas por motivos religiosos. Hoje é história como as igrejas e os menires espalhados pelos campos, entre sobreiros e oliveiras.

Os passeios são assim, levam-nos da paisagem à história, quase sem tempo para apreender o que se vê e sente. Tão depressa apanhamos sol nas margens do Alqueva para logo depois estarmos a apreciar um fim de dia junto às muralhas de Monsaraz no exacto lugar onde a câmara afixou um aviso a informar que dali se tiram as melhores selfies. Esta voragem de fazer tudo de uma vez dá que pensar, dá para prometer que para o ano será diferente, que não seja assim a correr de Elvas a Badajoz e de Badajoz a Olivença, que já foi nossa e ainda conserva a calçada portuguesa nos passeios. E todos as ruas têm dois nomes, o novo e o antigo.

Posso ainda contar os lugares por já andei e até os sítios improváveis onde estendi a toalha e mergulhei neste interior que parece um outro Portugal, de povoações caiadas de branco, de bom vinho e boa comida, pois se me perguntarem pelas férias terei também de falar daquele jantar em Portalegre. A memória destes dias passa por aqueles ovos mexidos com espargos e migas e uma sericaia com ameixas de Elvas de sobremesa, que me caiu tão bem e fez lembrar que a este povo nunca faltou imaginação para fazer da comida uma arte, mesmo quando havia pouco e era preciso enganar a fome.

O som das cigarras quebra o silêncio da tarde aqui na aldeia de São Pedro do Corval. Não fez ainda uma semana que deixei os gatos aos cuidados do meu irmão, mas parece-me que não vejo o mar e a luz cálida do Funchal há muito, há meses. Um ilhéu tem sempre saudades do mar, mas por enquanto a planície enche-me o horizonte. Sei que vou guardar estes dias como quem tira fotografias, sei que não preciso das fotos que tenho no telemóvel para lembrar o fim do dia enquanto o carro corre pela estrada ladeada de sobreiros, com rebanhos de ovelhas e cabras a pastar. Não há forma de guardar tudo isto a não ser na memória, é aí que fica o somos. E somos todas as viagens que fazemos.

Marta Caires

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