Os dias do vírus (IX)

Fosse a Democracia a vontade da maioria, e o pai de Valentina seria linchado num pelourinho, e confiado ao Juízo Final. Porque a Democracia é algo mais, o Estado tem a obrigação de estar acima do Mal

17 Mai 2020 / 02:00 H.

12 de Maio

O lábio da Marisa

Uma das maravilhas da idade moderna é a possibilidade de viver em bolhas, num jogo de espelhos entre pessoas com os nossos hábitos, as nossas ideias, os nossos meios, as nossas relações, de tal modo que somos incapazes de imaginar um mundo diferente.

Os publicitários andam claramente todos juntos, na sua bolha. Convenceram-se de que a marca é uma coisa inteiramente distinta do produto, e que a fidelidade do consumidor se presta antes aos ‘valores’. É por isso que os anúncios da era Covid-19 são todos iguais: presunçosos, lineares e agelastas (sem humor). Não lhes ocorre um mérito além da ‘resistência’, de ‘estar junto’, de ‘prevalecer’, coisas que o produto promovido, claro está, não fará por ninguém. Esta nova publicidade, de ligação forçada entre crenças fabricadas e a identidade do que se vende, glorifica o fingimento. E é deprimente porque se parece demasiado com a vida real, onde uma certa dimensão virtual, de exposição ao público, permanece intocada pelo sofrimento que intimamente existe.

A marca nunca pode sofrer, e exibe-se num vácuo de sentimentos perfeitos. Sucede que este vácuo é também contrário à própria ideia de valor, que pressupõe vulnerabilidade e provação. O gozo com o lábio da Marisa é símbolo de um mal-estar mais profundo. É a reacção epidérmica a um excesso de falsidade.

13 de Maio

Há uma razão para Nossa Senhora ter aparecido a Três Pastorinhos, e não a três influencers do Instagram. Vai por aí, nas redes sociais, algum exagero, porventura contrário ao rito e ao sentido discreto e particular da oração e do culto.

14 de Maio

Os Portugueses têm uma relação histórica, quase afectiva, com o que antigamente se chamava de “casos crapulosos”: a facada, o tiro, o roubo, a porrada, histórias do foro – de réus, testemunhas, advogados, populares, polícia e comentadores de serviço.

Mas o caso de Valentina é mais que isso, e é verdadeiramente raro. Não nos expõe à ganância, ao ciúme, à inveja, à violência, ao desleixo, aos impulsos destrutivos que quotidiana e brandamente conhecemos. Aqui, o que se viu foi o Mal. E a visão do Mal traumatiza, porque nos descasa da humanidade que o praticou.

Não surpreende que os populistas pairem em círculos sobre o Mal, como pairam em círculos sobre Valentina. O castigo para o Mal é uma questão antiga. Milénios de Estados autocráticos, absolutos e confessionais ensinaram que a realização da Justiça, como mandamento divino, autoriza o Juiz a igualar o mal do crime com o mal da pena. O “olho por olho, dente por dente” está ancoradíssimo no sentimento popular. E os populistas atacam, claro, o Estado que se refreia de arrancar olhos e dentes.

Fosse a Democracia a vontade da maioria, e o pai de Valentina seria linchado num pelourinho, e confiado ao Juízo Final.

Porque a Democracia é algo mais, o Estado tem a obrigação de estar acima do Mal, sobretudo quando o povo tem outra vontade.

Simplificando, uma democracia não faz aos seus cidadãos o que aquele pai fez à pequena Valentina. Essa lição levou dezenas de séculos a aprender, e de resto só se impôs pelo testemunho dos horrores do século XX. É natural que se esqueça num par de dias.

15 de Maio

A recandidatura de Marcelo foi mesmo lançada por António Costa, e logo em conversa amigável, entre piadolas e sandes, numa visita oficial de ambos a uma fábrica de automóveis. E o Primeiro-Ministro apoiou, aliás inequivocamente, a candidatura, ao afirmar que esperava encontrar-se com o Presidente daí a um ano, no mesmo local.

É certo que recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa era tão secreta como as cirurgias plásticas da senhora Pamela Anderson. Mas impunha-se, ainda assim, algum decoro a este patrocínio. Esta cumplicidade táctica é imprudente e degenerada.

Marcelo foi, como todos os Presidentes da República, eleito para exercer freios e contrapesos constitucionais, que lhe recomendam um módico de distância e gravidade diante de outros órgãos de soberania. Foi, ainda, eleito por uma Direita que não gosta de se ver deitada com Costa, e que reconhece nestas urdiduras tendências dissimuladas e geringonceiras. E o povo – que ainda não votou – responde com náusea a estes arranjos, que de resto o predispõem a procurar fora do sistema aquilo que o sistema não providenciou.

Em Política, o elogio do inimigo revela sempre uma qualquer podridão. Costa e Marcelo estão cansados de o saber. Mas o autoritarismo do vírus encheu-nos de Estado, e todo este Estado encheu-os de si. Preparam, sem querer, uma festa que pode dar gosto a estragar.

16 de Maio

Em Estado de Emergência tolerámos, por solidariedade e benevolência, toda a sorte de atropelos à organização do Estado e à ordem constitucional. Com o dealbar dos desconfinamentos, vão faltando justificações, e com elas a paciência, para tanta regra sem sentido, proporção, ou base na ciência que a imprensa vai libertando.

O assunto estalou-me com os caracteres, e fica talvez para a próxima – e última – edição dos dias do vírus. Por hoje, resta um lamento quanto à desconfiança, que incentiva sem descanso a coerção. Esqueçam a pandemia. Perguntem-se, mesmo antes disto: esperando sempre dos outros o pior, onde param as nossas liberdades?

Pedro Fontes

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