Óculos de ver ao perto

A ciática e artrose são problemas de velhos, doenças que o meu pai teve e das quais a minha tia Alice se queixa ao telefone

12 Ago 2018 / 02:00 H.

Eu nunca acredito nos médicos, é de mim e não é muito inteligente, eu sei, mas não acredito, acalento a esperança de que comigo vai ser diferente, completamente diferente. E esta descrença aumentou agora, aqui há coisa de quatro ou cinco anos, quando me apareceu uma dor nas costas com ares de ciática. Também já ouvir dizer que sentir os pés cansados depois das caminhadas é capaz de ser sinal de artrose, mas eu não acredito.

A ciática e artrose são problemas de velhos, doenças que o meu pai teve e das quais a minha tia Alice se queixa ao telefone. A minha tia tem 87 e o meu pai vai para 82 anos e eu sou nova, ainda uso calças de ganga rasgadas e sapatilhas, posso lá ter o nervo ciático entalado, mas pelo sim, pelo não deixei os sapatos de salto de parte. Digo que é pelo conforto e é, dá cá um alívio às costas e aos pés. Eu sei que é dos sapatos, a idade não tem nada a ver com isso.

Mais ou menos como os óculos para ver ao perto aos quais me rendi quando as mensagens do telemóvel começaram a ficar turvas. Não é da idade, não. Todas pessoas sabem que é disto dos computadores, isso é que estraga a vista e me faz esticar o braço para ler os mails do trabalho e as promoções das lojas. E eu gosto muito das promoções de maquilhagem, digo que é por causa da televisão e tento afastar do pensamento o que a minha mãe dizia e repetia enquanto espalhava base na cara: “é reboco, reboco como o que se dá nas casas velhas”.

Também sei que isto tudo que sinto – das dores nas costas às olheiras mais fundas – é para ser vivido em silêncio. Talvez se possa contar às amigas mais próximas, que navegam nas mesmas águas da meia idade, mas em público é preciso cautela quando se conta que a última a aula de natação nos fez num oito e o treino para a Volta à Cidade deixou com uma dor irritante nas costas por três dias. Não se pode falar disto em público a menos que se queira correr o risco de ganhar fama de hipocondríaca. Ou pior, de velha hipocondríaca.

Esta travessia da meia idade – e só de escrever e dizer meia idade sinto calafrios – é silenciosa, quase invisível. Ninguém quer saber da ciática, da artrose, das pastilhas para a tensão alta, nem dos TAC, das ressonâncias magnéticas e demais exames médicos com nomes complicados, nem dos diagnósticos de colesterol alto, do reumatismo e dos desvios na coluna por causa de anos sentados a olhar para o computador. A menos, claro, que se partilhe os males e, aí sim, há solidariedade, trocam-se os nomes dos médicos, conselhos e receitas caseiras.

É quando me aproximo mais da minha mãe, quando a revejo a descer a entrada e a falar de consultas e médicos e exames e medicamentos. É também quando percebo que a vida se repete, a diferença é que posso alugar uma espreguiçadeira e estender a toalha com os olhos postos no horizonte ou mergulhar no mar da Ponta Gorda. Por um momento sou outra vez uma adolescente a saltar da toalha para a água, isso cura quase tudo.

Marta Caires

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