O telefone

Lembro-me de ir espreitar ao quarto de jantar, de ficar a ver de longe só para ter a certeza: aquilo era mesmo um telefone.

12 Mai 2019 / 02:00 H.

Quando o homem dos CTT ligou o telefone e disse que já se podia usar, a minha mãe acertou os óculos na cara, enfiou o dedo no disco e marcou o número da minha tia Alice. A conversa que se seguiu foi mais ou menos aos gritos, pois a minha tia ouvia mal e nenhum nós estava habituado a falar ao telefone. O aparelho, de um preto reluzente, metia respeito, quase só se tocava para limpar o pó.

Lembro-me de ir espreitar ao quarto de jantar, de ficar a ver de longe só para ter a certeza: aquilo era mesmo um telefone. E no dia seguinte, na escola, na fila para os cachorros quentes, gabei-me e dei o número às colegas com quem partilhava os intervalos. Por um momento , senti-me outra pessoa, alguém mais próximo daqueles miúdos e miúdas que todos os dias irrompiam pelo portão dos Ilhéus.

A minha adolescência não foi fantástica por muitos motivos. A começar por ser a adolescência, depois por ser gordinha e ter pouco com que fazer figura. As minhas saias eram feitas dos restos de tecido da alfaiataria do meu tio Humberto, as t-shirts usadas até romper e a minha mãe só se empenhava em arranjar-me roupa para sair na procissão. E os vestidos de ir à missa só impressionavam a minha mãe e as minhas tias.

O telefone preto – o meu pai não quis pagar mais para ter um de outra cor – deu medo ao princípio e levou algum tempo até que todos nos fizéssemos à novidade, até sermos capazes de fazer uma chamada sem gritar e sem parecer bruscos. O trim-trim estridente, que se ouvia em cima do terraço e no poço de lavar roupa, fazia nervoso e a minha mãe irritava-se quando era engano. E fazia-lhe aflição quando tinha de ligar ao Sr. António da casa de bordados, que era um homem miudinho.

Mas até a minha mãe se habituou a ligar às minhas tias para dar recados ou tirar dúvidas no consultório do dr. José Miguel, para saber da receita e das consultas. De modo que quando cheguei à altura das matinés no cinema e da praia nas férias grandes já o telefone era parte da nossa vida no Laranjal. E com os dias no Lido e o cinema da sessão das quatro veio o que vem sempre quando chegámos aos 16, 17 anos: os planos com os amigos e os namoros.

Há 30 anos era tudo muito, mas muito mais difícil, mesmo com o telefone, preto e brilhante, em cima do aparador do quarto de jantar. Quando se chegava ao ponto de trocar números ou era um caso sério ou um dos dois tinha nervos de aço e muita coragem. Significava que se tinha passado da troca de olhares para a conversa tola de quem está a arranjar maneira de meter conversa, ali, num frente a frente sem rede. Cada um como era, a corar até às orelhas, com todas as imperfeições e defeitos.

Sem saber o resultado, com a impressão de que era melhor estar noutro lugar ou ser outra pessoa. Alguém que não ficasse vermelho, que fosse mais bonito, mais gracioso e não tivesse, para azar dos azares, uma borbulha na testa. Não havia filtros, éramos nós e, se um dos dois fosse corajoso, talvez tudo aquilo continuasse, talvez fosse capaz de marcar o número escrito num bocado de uma folha do caderno de Português.

Só que o telefone era da casa e a casa tinha pai, mãe e irmãos e nunca sabíamos quem ia atender. Podíamos sempre desligar ou dizer que era engano ou nem arriscar. Para os rapazes era pior, era suposto a iniciativa ser deles e eles tinham 16, 17 anos, borbulhas na testa e um medo terrível de ser barrados pela voz de uma senhora de meia idade. Às miúdas restava esperar, esperar que o telefone tocasse, naquele trim-trim estridente que se ouvia em cima do terraço e no poço de lavar, e que fosse um convite para o filme das quatro no Cine Casino.

Marta Caires

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