O sonho de um dia normal

A Madeira defendeu-se bem. Está unida. Mas as comunidades não se testam à entrada dos perigos, mas durante as provações, e à saída delas

15 Mar 2020 / 02:00 H.

1. O Cais do Sodré brilhava contra o rio enquanto saíamos da Bertrand e descíamos a Rua do Alecrim de regresso ao trabalho. O sol estava quente, apesar de ser Fevereiro, e tudo lembrava um dia de férias – os eléctricos, os autocarros, as fachadas recém-pintadas de cores vivas, as portadas abertas dos apartamentos turísticos e dos hotéis, os deslizes ritmados das sapatilhas dos artistas de rua, que escorregavam na calçada como notas agudas de um violino. Os estrangeiros de calções deambulavam, em casais, roçando-se por quem passa enquanto consultavam mapas nos iPhones.

Tínhamos almoçado bem, e era sexta-feira. Da rua ouviam-se os baques dos porta-filtros dos cafés e o assobio das válvulas de vapor. Desabotoamos os casacos e deixamos as abas ao vento. O grupo de corrida de um ginásio tira uma selfie à sombra da estátua de Eça de Queirós. Um de nós comenta que as miúdas são sempre mais giras do que os gajos. Debatemos as causas morais e socioeconómicas do fenómeno, invejando os estudantes que dividem uma litrosa à beira-rio. Alunos de um colégio católico dirigem-se para uma marcha sobre a eutanásia. Provocam uma discussão desportiva, mas apaixonada. Um de nós recebe uma chamada. É preciso voltar. A derrapagem das sapatilhas é substituída pelo trote dos saltos e dos sapatos de sola seca. No céu desmancham-se em cirros os rastros dos aviões. Um cliente quer qualquer coisa para a tarde do mesmo dia. Nos telemóveis soam alarmes de reuniões, notificações de resultados de jogos de ténis, e o alerta para uma notícia avulsa sobre um vírus em Wuhan. Um de nós põe-se a falar de exportações. Despedimo-nos. ‘Vá, vá. Business. Ocupadice, como dizem os bifes’.

A normalidade de um dia do mês passado. Parece um sonho.

2. Francis Fukuyama celebrizou-se por sustentar que a justiça, a liberdade, o comércio, a ciência, e até a beleza são fatalidades da nossa civilização. Que a Humanidade segue uma trajectória que elimina relações de poder e subordinação até assentar numa igualdade de respeito perfeita e final, que marcará o ‘Fim da História’. Coitado de Fukuyama. A História que se fez nesta semana.

3. O Covid-19 demonstra, precisamente, a precariedade do respeito e da igualdade. A adversidade imprevisível e irresistível subverte todos os contratos e convenções. Na doença e no desconhecido recolhemos, e recorremos, às relações de poder e subordinação que conhecemos – à família, à comunidade, e ao Estado Nação. Defendemos os nossos. Com bloqueios, quarentenas, e trancas à porta. Encerramentos de fronteiras, cancelamentos de voos e reservas, estados de sítio e exceção. Sitiados, acossados, limitados. Defendidos por sangue, sorte ou vassalagem. É essa a nossa natureza. A liberdade, a confiança e o respeito são elevações sobre esses instintos. São privilégios. Se parecem um sonho, é porque o são. E muitos deram a vida pelo atrevimento de o sonhar.

4. Porque ficou, então, famoso Fukuyama? Porque, estando errado, esteve plausivelmente errado. No final do século XX, o Homem parecera adquirir um domínio perfeito sobre a Natureza e sobre si próprio. Se a História tem um arco, ele dobra no sentido da Justiça.

Somos, inconscientemente, como ele. Cada vez que nos chocamos por não haver uma vacina, um medicamento, ou uma solução para a catástrofe natural, comungamos numa religião de inquebrantável fé no Homem e no seu progresso.

5. O perigo desta tese é o de confiar cegamente nela. Sentir que o que aí vem é uma inevitabilidade, um percalço na marcha inexorável das luzes e do desenvolvimento, algo que vai passar sozinho. Não. O que aí vem depende criticamente de nós.

6. Os inimigos da liberdade afiam as facas na noite longa do seu silêncio. Repare-se no orgulho e na paz com que acolhemos as medidas draconianas de contenção. Veja-se a antipatia, a divisão, a desconfiança do estrangeiro. Imagine-se o saldo da lei marcial, da morte, da mentira, da ruína, do véu de chumbo nas democracias até remissão da ameaça. A capitulação de líderes abertos e prudentes, a unção de líderes fortes e fechados.

Se o Covid-19 é a liberdade, eu não quero ser livre.

7. Não surpreende que se colha este fruto, nem é acidente que ele se ceife pela mesma foice. Para os fanáticos religiosos, o vírus é castigo de Deus. Para os anti-capitalistas, é correção de política ambiental. Para animalistas, a justa paga pelo consumo de carne. Para os autoritários, um derivado necessário da globalização. Ser livre é um pecado, um vício, um perigo. A castigar, a impedir, a cercear. Por necessidade primeiro, por medo depois. Já ouvimos isto antes.

8. Somos convocados para uma fibra moral de que nos julgávamos dispensados. Amolecidos pelo conforto, julgámos que a História acabara por uma propensão da Humanidade para o Bem, e não porque os nossos antepassados recusaram deliberadamente o obscurantismo e a opressão. Esquecemos os sacrifícios dos nossos avós, dispensámo-nos do exercício voluntário de qualidades públicas e arriscamo-nos, hoje, a faltar à nossa chamada.

A Madeira defendeu-se bem. Está unida. Mas as comunidades não se testam à entrada dos perigos, mas durante as provações, e à saída delas. Não nos devemos proteger do vírus pelo vírus, mas para recuperar a vida que ele nos tomou: para reerguer os nossos negócios, retomar os braços dos nossos amigos, e reclamar o toque daqueles que amamos.

Nas ruas vazias de Itália, tocam-se saxofones das varandas, e raparigas dançam com copos de vinho entre as balaustradas. A coragem é um imperativo cívico, e a alegria um ato de resistência.

Não desistamos do sonho de um dia normal. Lutemos por ele.

Pedro Fontes

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