O que será do turismo?

Com preços proibitivos nem sequer conseguiremos ser atrativos para aquilo que o nosso Primeiro Ministro tanto proclamou

21 Mai 2020 / 02:00 H.

Parece-me claro que o trabalho da Madeira no combate à pandemia foi extraordinário. E quando falo da Madeira, falo de todos os agentes envolvidos , a começar no Governo e a terminar nas empresas, mas dando especial ênfase à responsabilidade cívica das pessoas porque sem elas nada disto teria sido possível.Para quem vê de fora, não parecem restar dúvidas de que foi a ação coordenada e assertiva, no tempo certo , com as medidas adequadas, a razão de tal sucesso. Sempre defendi que assim deveria ter sido também no continente. Fechar mais cedo para abrir mais cedo e com a imagem intacta, como fez aliás (com os resultados que estão à vista) Macau, que assim que se registaram os primeiros casos fechou o seu território, da hotelaria aos casinos, obrigando as pessoas à quarentena, acabando por controlar a propagação do vírus, sobretudo da vizinha China, reabrindo ainda a crise estava no seu início, no continente europeu.

Essa é por isso a nossa primeira grande conquista. O sinal inequívoco de responsabilidade. A imagem que sobressai intacta e que segundo alguns artigos e estudos sobre a matéria nos colocam nos destinos mais apetecíveis a visitar, assim que regressem as viagens. É uma imagem de segurança e de conforto, que está no topo das prioridades para quem se desafia a umas retemperadoras férias. Por muito que nos digam que o vírus vai agora hibernar e só volta no Outono (se voltar) ou que ele afinal não é tão perigoso e mortífero como se pensava, a verdade é que ninguém quererá visitar países que foram notícia pelas piores razões, que registaram um sem números de mortes e infectados. Convém lembrar que nós por cá não registámos um único óbito e que os que testaram positivo se resumem a uns míseros 100. Que melhor música para os ouvidos dos turistas que esta?

O problema vem a seguir. Existem diversas variáveis que não controlamos e que por isso nos expõem a dificuldades que só poderão ser supridas com muita astúcia, mas sobretudo empenho, dos diversos intervenientes envolvidos. É um facto que o nosso turismo é na sua maioria sénior e por inerência de grupos de risco, o que atrasará a sua confiança, mas quanto a isso, fizemos o que tinhamos a fazer. Dar provas cristalinas aos mercados, que somos confiáveis. Mas para que os turistas cá cheguem , têm que se deslocar, e como somos uma região insular o transporte preferencial é o avião. Aí voltamos a bater no mesmo muro de sempre.A falta de respeito que as companhias aéreas têm demonstrado e a falta de ação e de visão do Estado para inverter a situação. Se, como tudo indica, os preços aumentarem dada a deflação no número de lugares disponíveis ou até para recuperar o tempo perdido das companhias aéreas, teremos ainda mais dificuldade em sermos competitivos em relação a outros destinos com desempenhos similares aos nossos. Basta ver o corredor turístico que está já a ser criado para alimentar a Croácia e outros países do género.

Com preços proibitivos nem sequer conseguiremos ser atrativos para aquilo que o nosso Primeiro Ministro tanto proclamou. Fazer férias cá dentro. Quem é que vem para a Madeira numa viagem de 500 ou 600 euros (ida e volta) quando pode ir para o Alentejo ou Algarve por uma dúzia de euros de combustível e mais algum para as portagens? Onde é que está então o incentivo a fazer férias cá dentro? Ou só vale para o continente? É estranho e até triste ver que nestas alturas de crise a distância que as regiões autónomas têm do continente tende a aumentar. Parece que estamos cá ao longe, esquecidos, sem sermos uma prioridade.Vejo-lhes nos olhos, muitas vezes, a vontade que têm de nos dizer “então não queriam autonomia? Agora governem-se.” A verdade é que pagamos impostos como os outros e temos o direito de nos ser cumprido o principio de continuidade territorial. Devia existir numa altura excecional como esta um subsidio real para que os continentais pudessem ir aos Açores e à Madeira passar as suas férias e usufruir de tantas maravilhas que temos para lhes mostrar. Se é altura de estarmos unidos as ilhas também contam, ou não?

Este nosso constrangimento pelo facto de sermos ilha torna-nos também mais limitados nas opções que temos para reagir a uma crise desta natureza. É por isso necessário que o Governo português tome medidas para minimizar os estragos e nos permita aliviar um pouco a corda na garganta. A suspensão da Lei das Finanças Regionais e do pagamento dos juros da dívida à República impõem-se para ontem. Mas também a defesa em sede própria de um plano especifico de financiamento para as regiões insulares por parte da União Europeia. Quanto à TAP, espero que a aventura recente de acrescentar inúmeras novas rotas aproveitando-se do lucro que lhe dá a condição preferencial nas ilhas não nos toque outra vez no corpo. Já chega de sermos sempre nós os prejudicados. Fizemos a nossa parte , agora façam vocês a vossa.

José Paulo do Carmo