O que faz a vez não precisa de ser bonito

01 Dez 2019 / 02:00 H.

Pessoas a remexer roupa, pessoas nas filas para pagar, pessoas carregadas de sacos a passar pelas montras com letreiros a anunciar os descontos da Black Friday. Estamos modernos, que isto aqui há coisa de 30 anos não era possível, nem os saldos valiam o gasto. A minha mãe devia ser a única que, todos os anos, se aventurava pelas lojas em promoção à procura de uns sapatos e umas roupas mais ou menos aceitáveis.

As mesmas que, sem outro remédio, eu juntava às saias feitas de sobras de tecido da alfaiataria do meu tio Humberto e, nesses trajes, fazia o que podia para sobreviver aos intervalos. Assim de cabeça, lembro-me de um fato de treino, de uns sapatos de verniz da Charles, de um vestido de cintura descida, de umas sapatilhas sem jeito e um saco de desporto amarelo cor de ovo.

O saco de desporto amarelo era particularmente feio. Só ia à escola nos dias da Educação Física e quando eu não tentava escapar com a desculpa de que não me estava a sentir bem. A ginástica perseguiu-me no campo do Ilhéus, nos intervalos e em todas as noites antes das aulas durante anos. E o saco acompanhou o pesadelo, mas a cor berrante foi uma vergonha apenas para mim.

A minha mãe gostava de dar o exemplo das boas compras que fazia, que vissem as senhoras que apareciam às quartas para receber o dinheiro do bordado, tão pouco dinheiro e fazia bem a vez, que para andar abaixo e acima não era preciso ser bonito. Era mais ou menos como os sapatos para chuva, não importava o feitio ter passado de moda antes do meu pai comprar a televisão a cores em 1980.

Não posso dizer que perspectiva mudava muito quando decidia pelo que era bonito. Entre os calções juntos nas ancas e apertados na barriga e aqueles vestidos estanhos para sair na procissão não se dava pela diferença. Eu, a sobrar de uns sete quilos a mais, 10 centímetros acima da minha mãe, enfiada nas roupas esquisitas, de cores sinistras, teria gostado de ser salva por uma Black Friday antes da Natal e em lojas bonitas e modernas.

E ainda atordoada pelo movimento, penso, enquanto seguro em dois sacos com 20% de desconto, na minha mãe, quase a consigo ver a remexer na roupa, a olhar os preços e a fazer contas de cabeça com as percentagens, a escolher as cores para dar com tudo e a sair carregada. Sei que são saudades, por se estar quase na Festa, que era a altura mais bonita de todas na nossa casa. Do resto, não faço ideia de como seria, a minha mãe morreu na altura dos escudos, muito antes dos telemóveis e das redes sociais e de quase tudo o que existe hoje.

Marta Caires

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