O diabo de tocaia

No meu quarto, todas as noites, espreitavam os fantasmas e as almas penadas das histórias que o meu irmão contava ao almoço, enquanto engolíamos o arroz e o bife de doentes que a minha mãe fazia quase todos os dias.

08 Abr 2018 / 02:00 H.

Quando cheguei à idade de aprender geografia, de saber dos rios e das serras, de distinguir um continente de uma ilha, já não se ensinavam os nomes das estações dos caminhos de ferro de Angola, mas tive de saber de cor e na ponta da língua a definição de península, continente, oceano e ilha. Cada um de nós ia ao mapa apontar onde estávamos, quase não se via o ponto, um micro-ponto no meio de uma zona azul. O azul era a cor dos mares e dos oceanos, o verde e o bege faziam os continentes, os pólos estavam a branco, era a neve dos esquimós e dos pinguins.

O tamanho do mundo e o tamanho da ilha davam que pensar, tão grande e tão mínimo e o quando os professores falavam como o Carl Sagan, um senhor que aparecia na televisão aos sábados, o universo, tudo o que nele existia, rios, mares, planetas e estrelas e galáxias, parecia pesar-me nas costas, era muito, além da conta. Eu, depois de ver os programas, adormecia com a luz ligada metida em pensamentos estranhos sobre o escuro, talvez uma força me levasse dali, do meu quarto pintado de azul, com cortinas de renda e colcha de folhos.

A vida das pessoas era como um carreiro de formigas no jardim ou a subir pela parede, pequena e à mercê de imponderáveis como meter lá o dedo para desviar as formigas, elas ficavam mesmo atarantadas, tinha repetido a brincadeira vezes e mais vezes até o senhor do Cosmos me ter ensinado que o planeta que me parecia grande no mapa da escola era afinal um grão de areia. Nós éramos ainda mais pequenos que as formigas por comparação a tudo o que existia nas inúmeras galáxias. Isto era muita informação para uma miúda de 11 anos.

No meu quarto, todas as noites, espreitavam os fantasmas e as almas penadas das histórias que o meu irmão contava ao almoço, enquanto engolíamos o arroz e o bife de doentes que a minha mãe fazia quase todos os dias. O meu irmão adorava mistérios, séries de ficção científica e filmes de terror e fazia versões adaptadas da vinda de extra-terrestres, de almas penadas que se iriam revelar quando estivesse a olhar-me no espelho do quarto de engomar. E contava tudo com tanto empenho que comecei a ter medo de andar pelos quartos nas horas mortas da tarde, o silêncio causava arrepios, até parecia que estava ali gente.

As conversas na roda dos bordados na sombra da ameixieira amarela da casa do meu avô não me sossegavam, havia muito olhado, muito homem enfeitiçado, bruxedos capazes de desfazer noivados e provocar paralisia e loucura. Falava-se muito do Amadeu do Pico dos Barcelos, um milagreiro que tratava de tudo com resultados, fossem doenças graves ou males de amor. A minha mãe foi lá uma vez por causa da úlcera, mas não ficou freguesa. Não era pessoa de acreditar e, remédios por remédios, preferia os da farmácia aos da ervanária. Também tinha mais confiança no dr. José Miguel, o Amadeu não era médico, explicava a quem a queria convencer do contrário.

No Laranjal do princípio dos anos 80 a ciência, o pensamento mais avançado chegava pela televisão e convivia com as histórias mais espantosas como a da tia lá dentro – uma senhora que era tia da minha avó e nunca teve outro nome a não ser esse – que caiu de cama no preciso momento em que o marido morreu na América depois de ter sido atropelado. Nunca mais se recompôs, ninguém a conseguiu tirar da cama, nem a força de vários homens e os lençóis rasgavam-se. As minhas tias juravam que tinha sido assim, tal e qual como tinham sido as almas a dar os nós às linhas do bordado numa altura em que a minha avó lhes devia uma missa, uma que tinha prometido.

Mais ou menos por esta altura, em que o Carl Sagan explicava a dimensão do universo, os ONVI apareciam em notícias de jornais, o Amadeu levava uma multidão de crentes ao Pico dos Barcelos e o meu irmão fazia versões de histórias de terror, a minha mãe decidiu que era chegado o momento de explicar que, mais dia, menos dia, o meu corpo ia mudar, ia transformar-me numa mulher. E falou com entusiasmo, que era bom, não se adiantou muito, mas deixou-me perplexa e com um livro de título esquisito. “A Verdade sobre o Amor”, comprado nas edições Paulistas, tinha desenhos que me fizeram corar e palavras complicadas, não percebi tudo, aquilo era estranho, esquisito e eu ia fazer força para não crescer, para o meu corpo não mudar. Já me bastava ter medo de encontrar uma cara diferente da minha no espelho ou de ser apanhada por um cataclismo, seria também colhida por uma transformação que, no fim, me devolveria à vida como uma mulher.

Isto era muito para uma miúda de 11 anos e não demorou até aos pesadelos com maremotos e quedas de alturas inimagináveis que me faziam acordar em sobressalto no escuro. A vida parecia isso, um mergulho no escuro e foi a luz da mesinha de cabeceira que me salvou, passou a estar sempre ligada. A minha tia Alice dizia que a luz eléctrica era a maneira de afugentar fantasmas, almas, tudo. O certo é que, uns anos depois, quando ligaram a iluminação pública no caminho, deixaram de contar as histórias do diabo em forma de cão e feiticeiras de tocaia nos cruzamentos.

Marta Caires

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