O bom, o mau e o ninho de cucos

15 Fev 2020 / 02:00 H.

Dizem que cada um terá a vista da montanha que subir. No caso da economia portuguesa a vista não será grande coisa, com 16 países a crescerem mais do que nós, entre os quais a Bulgária, o Chipre e a Grécia. Ainda assim, o Governo continua a festejar o crescimento acima da média europeia. O antigo Ministro da Defesa, tem pela frente uma montanha difícil de escalar. Tão difícil como aceitar que Azeredo Lopes acreditou na encenação de Tancos, porque costuma ver muitos filmes policiais. Para quem assiste à queda de mais um governante socialista, a vista promete ser inesquecível. Por cá, voltamos ao bom, ao mau e, só por esta semana, sobrevoamos o ninho de cucos.

O Bom: José Carmo

Esta foi uma semana difícil para a Universidade da Madeira. Primeiro, um ano depois do estudo prometido pelo Governo sobre a majoração do financiamento às universidades da Madeira e dos Açores, nem estudo, nem majoração, nem justificação para o esquecimento. Segundo, uma proposta do PSD para o Orçamento do Estado para 2020, que garantia o adiado aumento do financiamento para as duas instituições, foi chumbada pelo PS, graças à peculiar abstenção do Bloco, do PAN e da Iniciativa Liberal. Terceiro, alguns dias depois, foi anunciado pelo Ministro do Ensino Superior um reforço de 4.8 milhões de euros ao orçamento da Universidade dos Açores. As eleições nos Açores serão, apenas, uma feliz coincidência. Para a Universidade da Madeira nem um cêntimo a mais. No meio da tempestade socialista que se abateu sobre a universidade, emergiu o Reitor José Carmo a defender a sua instituição e os seus alunos. Alguns dirão que não fez mais do que o seu dever – é certo – mas fê-lo com especial elevação. O Reitor resistiu ao protesto ruidoso e limitou-se a endereçar um singelo convite ao Ministro para visitar a Madeira e conhecer a Universidade. E, como não podia deixar de ser, para assinar o mesmo contrato que assinou com a Universidade dos Açores. Sem murros na mesa ou ruído mediático, José Carmo foi certeiro na resposta e no desafio lançado. Tem a palavra o Sr. Ministro.

O Mau: Eutanásia

Não há temas bons ou maus. Mas há formas certas e erradas de os tratar. A forma apressada como alguns partidos querem legislar sobre a eutanásia, para além de errada, é profundamente enganadora. É errada porque parte do princípio que um tema desta complexidade, que nos convoca para uma reflexão profunda sobre a inviolabilidade da vida, pode ser tratado em menos de duas semanas. Pior ainda, que pode ser decidido nas costas da sociedade civil, a quem tanto os partidos juram abertura, e enquanto se tenta fugir de um referendo popular, cujo único grande perigo é permitir que as pessoas discutam algo que encerra mais dúvidas que certezas. E é por isso que esta urgência legislativa é enganadora. Porque diz-nos que a eutanásia é liberdade de escolha e negação do sofrimento. Quando, na verdade, não é uma, nem outro. Não é uma questão de liberdade porque todas as propostas para legalizar a eutanásia obrigam a autorizações médicas, limitam-se a certas doenças e a diagnósticos muito exigentes. Portanto, reconhece-se que a liberdade de escolha e a vontade própria não são suficientes para sujeitar-se a este processo. E não é uma questão de sofrimento, pois o prolongamento artificial da vida, a recusa de tratamentos que estendam o sofrimento ou as escolhas expressas no testamento vital, são direitos que já nos são reconhecidos. Talvez por isso seja importante relembrar o que é, efectivamente, a eutanásia: pedir a um médico que nos tire a vida. Que ninguém se esqueça disso. Admitindo que haverá quem o queira, e sem o atrevimento de sequer opinar sobre essa vontade, é penoso concluir que o nosso suposto grande avanço enquanto sociedade se reduza a esta questão: cuidar ou matar?

O Ninho de cucos: Assembleia da República

O último episódio da telenovela “Agarrem-me ou chumbo o orçamento”, brindou-nos com um previsível final feliz. Apesar de alguns arrufos pelo caminho, a geringonça voltou a juntar-se para viabilizar mais um orçamento de António Costa. Tudo está bem, quando acaba bem. A segunda temporada, que é como quem diz o próximo orçamento, promete ser ainda mais empolgante. Mas a história da aprovação do orçamento foi muito mais que a reedição da geringonça. No caso do PS, assistimos ao milagre da transformação dos votos contra em votos a favor. Foi assim no subsídio de mobilidade, na regularização dos precários da RTP Madeira e noutras 8 propostas. Primeiro contra, e depois a favor quando se viram sozinhos na reprovação. No capítulo das coligações, PSD, Bloco de Esquerda, CDS, PAN e Iniciativa Liberal juntaram-se para salvar uma proposta do Chega que exigia transparência no financiamento público. Já o PSD encontraria no Bloco de Esquerda o parceiro ideal para baixar o IVA da eletricidade. O mesmo Bloco que, 4 anos antes, impediu o PSD de governar. E essa talvez seja a maior aberração do parlamento pós-geringonça. É que apesar de todos estarem de acordo na redução da taxa de IVA, os partidos conseguiram que nenhuma das propostas de redução fosse aprovada. Com a geringonça, António Costa abriu a porta da gaiola, mas deixou de ter mão nos cucos.

João Paulo Marques