Ninguém sabe para o que está

E lembro-me de como era complicado resistir aos mármores e aos dourados das casas

06 Ago 2017 / 02:00 H.

Está um daqueles dias de calor, daqueles que incham os pés e amolecem o corpo, e eu arrasto-me rua adiante sem um pensamento na cabeça, é do calor. À frente da Sé avisto bonés e oiço falar espanhol, homens e mulheres, crianças pela mão, dá a impressão de que acabaram de chegar num voo de Caracas. Todos os meses chegam mais e eu lembro-me de quando faziam inveja com os seus Mercedes dourados e as casas vistosas, os bolsos cheios de notas de dez contos para comprarem todo aquilo que lhes apetecesse.

Os rapazes mexiam com os corações das raparigas da vizinhança quando apareciam no arraial de carro novo e as raparigas tinham um quê de ‘miss’, de unhas pintadas e maquilhagem e um ritmo que nos dava tonturas. Nós não podíamos competir com aquele estilo made in Miami, não tínhamos andamento, nem dinheiro de modo que sobrava inveja e o bom gosto, o nosso, de cara lavada e roupa unissexo.

E lembro-me de como era complicado resistir aos mármores e aos dourados das casas, às roupas exuberantes, às festas de casamento fartas, de como ficava pouco mais do que o preconceito para rejeitar aquilo que não tínhamos nos anos 80, antes da União Europeia nos resgatar e tornar a nossa vida um pouco mais colorida. A nossa vida era cinzenta, triste e austera quando, assim em jeito de vingança, baptizámos os que chegavam como ‘miras’. Sim, que eles tinham tudo, menos o português, mesmo que fosse o nosso com sotaque carregado.

A família à frente da Sé cruza-se com conhecidos, nasce ali uma conversa animada, naquele castelhano das Caraíbas, não percebo bem o que dizem, mas por estes dias as preocupações são outras, os empregos, os documentos, o futuro. Já não vêm para mostrar fortuna, mas fogem da fome, das filas para comprar comida, da violência e eu dou por mim a pensar que não sei o que isso é. Nunca passei fome, mas sou capaz de perceber como é indigno seja em Caracas ou aqui entre os que vão à sopa dos pobres.

E também sei que toda a inveja que senti de todas as miúdas bonitas e vistosas que chegavam da Venezuela e roubavam a atenção dos rapazes é neste momento uma futilidade de adolescente. Eu, em boa verdade, também quis ser como todas as outras raparigas populares, aquelas que pairavam no reino dos deuses e muito acima do lugar onde eu estava. Do azar é melhor não guardar ressentimento, a vida é o que é e penso que gostava de dizer àquelas pessoas que são bem-vindas, que faz falta gente numa ilha a envelhecer.

Está um dia de calor, daqueles que amolecem o corpo e é melhor seguir caminho. A vida dos outros é dos outros, mas a solidariedade é devida a todos. Um dia podemos estar a mostrar a fartura, no dia seguinte a fugir e ninguém sabe para o está reservado. Na Venezuela ou aqui mesmo, onde parece que nada acontece.

Marta Caires

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