Na peugada de Tolentino

Quando olho para ele não vejo um simples Padre (sem desmerecer), vejo alguém com quem aprendemos mais um pouco todos os dias

05 Set 2019 / 02:00 H.

No decorrer da minha vida tenho-me apercebido de tanta gente ávida e tão empenhada em gerar consensos e que por muito que tente passar a sua mensagem parece sempre ser a manta curta. Ora gostam mais uns e outros gostam menos ou vice-versa. Talvez por isso dê atenção de uma forma especial aos poucos predestinados que pelo seu comportamento ou pelas suas atitudes, pela sua relação com os outros ou tão só na sua forma de estar na vida geram consensos à sua volta. Sem nunca o terem pedido ou sem que esse tenha sido o desígnio com que conduziram as suas ideias, as motivações mais profundas ou que transpareça por alguns instantes sequer que foi isso intencional , premeditado ou razão de qualquer esforço. Antes isso sim um registo de naturalidade, de Paz, conforto e até de amizade sem mesmo conhecermos pessoalmente a pessoa em questão.

É nessa classe dos poucos que eu incluo José Tolentino de Mendonça. Quando olho para ele não vejo um simples Padre (sem desmerecer), vejo alguém com quem aprendemos mais um pouco todos os dias, em cada frase até nas mais simples ou nas declarações que quando saem da sua boca parecem destilar um significado especial. Penso que quem com ele convive permanentemente se torna obrigatoriamente maior no sentido de mais inteiro, mais preenchido e melhor. Pessoa de famílias humildes, que percebeu desde cedo na pele as dificuldades da vida, mostra-nos que não são as circunstâncias que nos transformam e nos espartilham na mediocridade mas sim a falta de espirito criativo, a falência da força para fazermos algo de diferente e substantivo de uma forma tão acessível que até parece fácil. Que até dá vontade de puxar a cassete atrás e tentar ser assim seguindo as suas peugadas.

Mais um madeirense que marca de forma indelével a sua presença no Mundo. Natural de Machico onde todos os admiram e lhe reconhecem o percurso não se limitou a seguir os ensinamentos que foi aprendendo tornando-se também um poeta de créditos firmados e um professor reconhecido, um humanista intenso, homem da cultura , do crescimento intelectual como forma de desenvolvimento pessoal. Pessoa de trato fácil e entendível, de uma transparência inaudita que nos transporta para aquilo que a Igreja de melhor tem. A transmissão da palavra consubstanciada nos actos permanentes de uma vida pejada de pequenas conquistas que aos seus olhos não serão mais do que simples passos no caminho para “relativizar o que é relativo e ancorar-se no que é realmente a essência”.Só essa consistência na diferenciação lhe permitiu que de uma forma tão meteórica tenha passado de Sacerdote a Arcebispo arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana no Vaticano e agora um ano depois no próximo dia 5 de Outubro no consistório será nomeado Cardeal.

E não foi por cunhas nem por lobbies (que também os há na Igreja) que lá chegou. Tolentino que tinha sido vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa despertou a atenção do Papa Francisco num retiro quaresmal que liderou. Tantas vezes distante e algumas até arrogante esta Igreja dá-nos também exemplos de como ainda existem no Mundo pessoas capazes de nos mostrar permanentemente que existem várias estradas para a fé e diversas formas de chegarmos aos outros e de termos uma palavra especial com os que nos rodeiam. Deve ser por isso um enorme orgulho para todos esta nomeação pejada de significado e cheia de valores nela contidos. Que num tempo de guerras saibamos dar valor ao que realmente interessa.

“Consola-me pensar que ele (o Santo Padre), ouvindo-me durante os exercícios espirituais, talvez tenha pressentido que para mim não há diferença entre uma biblioteca e um jardim.”

D. José Tolentino de Mendonça

“Obrigado por nos lembrar que a Igreja, não é uma gaiola para o Espirito Santo, que o Espírito também voa e trabalha fora”

Papa Francisco

José Paulo do Carmo
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