Meu querido ódio...

O tempo das arenas, fogueiras, guilhotinas, pelourinhos já lá vai, mas os grilhões continuam a ser aclamados e venerados nesta sociedade moderna que não hesita em parar para admirar a desgraça alheia, bendizendo a sorte que cada um tem em se livrar dos castigos ora divinos, ora desta vida lixada do que «é para ti o rato não rói».

29 Ago 2018 / 02:00 H.

«Cuidado com os falsos profetas», alertaram vozes graves, outras histéricas ao longo dos séculos. Meteram-se homens bons, outros maus, a arder em fogueiras, perante o escárnio de uma população ávida por sangue, dor e sofrimento.

O povo gosta de ver açoites em praça pública e admirar, com um certo nojo e ansiedade, as flageladas na pele dos alegados criminosos.

A punição tornou-se num espetáculo em que poucos são aqueles que conseguem virar a cara por revolta ou pura e simplesmente, por compaixão.

O tempo das arenas, fogueiras, guilhotinas, pelourinhos já lá vai, mas os grilhões continuam a ser aclamados e venerados nesta sociedade moderna que não hesita em parar para admirar a desgraça alheia, bendizendo a sorte que cada um tem em se livrar dos castigos ora divinos, ora desta vida lixada do que «é para ti o rato não rói».

«Cuidado com os falsos profetas» porque eles, perigosos, já não sabem o que dizem para ludibriar. São encantadores que espalham a sua melodia, prometendo mundos e fundos para alterar o fado que cada um carrega. Eles andam aí, modernizados, travestidos, dando a mão a este, açoitando aquele, afagando o outro. Já não falam nas leis divinas, nem nas mensagens celestiais, mas são exímios na arte de espalhar as suas visões apocalípticas de um mundo que caiu nas mãos de demónios incompetentes que têm de ser pulverizados da face da terra.

Conforme as pretensões e os interesses, sempre com o estandarte bem levantado e com o grito de guerra aos demónios, os falsos profetas fazem, pela calada, pactos sinistros com outros diabretes. A sede de conquistar o poder a qualquer custo há muito que atirou, também para a fogueira, as valiosas lições da Arte da Guerra ou dos grandes generais romanos, os mesmos que viviam constantemente entre a glória e as facadas nas costas.

«Cuidado com os falsos profetas», gritam hoje em dia todos os que se recusam entrar nessa espécie de barca do Inferno, também ela disfarçada de uma imponente Arca de Noé. Não são os puros, os mais capazes, os meritórios, os mais audazes que têm lugar na embarcação, mas sim todos aqueles que não se importam de pagar umas quantas moedas ao próprio diabo.

Conscientes das suas ações, todos os parvos, sapateiros, onzeneiros, fidalgos, entre tantas outras satíricas personagens, deixam-se embalar pela falsa segurança de uma barca que, afinal, é igual a tantas outras que já passaram por esse mar imenso de falsas pretensões. A disposição dos lugares é que mudou. Os clientes também.

E em tom de escárnio e maldizer, apontam o dedo aos que ficaram em terra, perdidos nesse mundo infernal comandando pelos tais demónios que têm de ser expulsos a todos o custo.

Prometem voltar com determinação, com exércitos parcos em inteligência e de capacidades duvidosas, para dar cabo de todos aqueles que não mostraram interesse em embarcar nas palavrinhas mansas dos falsos profetas e seus correligionários.

Os tempos mudam, mas as histórias e as personagens, tão bem descritas por Gil Vicente, continuam a reencarnar em todas as gerações deste Portugal dos pequeninos que um dia sonhou em ser grande, faltando-lhe para isso a noção exata de educar um povo para isto a que se chama de Democracia.

Mas como escreveu Jacques Rancière, «a liberdade é também a liberdade de errar». A grande mais-valia está em saber quando se erra e, principalmente, não ter problemas em reconhecer esse mau momento.

E é devido a essa tremenda falta de educação, num sistema em que tudo é permitido, que se incentivam extremismos, propaga-se sem grandes medos a desinformação perigosamente interessada em baralhar, confundir, fazer lavagens cerebrais àqueles que não se dão à maçada de usar os neurónios e pensar pela sua própria cabeça.

Desenvolvemos pequenos ódios de estimação, projetando nas nossas “vítimas” domésticas todas as frustrações que carregamos, atirando-lhes com as culpas para não sermos capazes de enxergar as nossas próprias falhas. Numa sociedade que começa a ser conspurcada, cada vez com mais intensidade, pelos constantes vómitos de ódio em relação a coisas sérias e a coisas tontas, há perguntas importantes que ficam penduradas: que demónio escondes tu, falso profeta?

Sónia Silva Franco