Meninas aos 50

14 Jul 2019 / 02:00 H.

A vida no Laranjal não tinha grandes acontecimentos a não ser quando estalava um daqueles falatórios a propósito de um noivado desfeito ou de uma gravidez antes do casamento. Ou, melhor ainda, quando uma rapariga acima dos 25 anos arranjava marido, casava na igreja, de véu e grinalda e mostrava que fora capaz de trocar as voltas à sorte que a vizinhança já lhe destinava. A de ficar para sempre solteira, com título de menina e as obrigações dos outros, não sendo senhora de nada. Nem do dinheiro, nem do tempo, nem sequer dos afectos.

Todos os sítios tinham estas meninas já entradas na idade, que cuidavam dos sobrinhos e velavam pelos pais velhos. Assíduas na igreja, iam à missa ao domingo e protegiam os segredos e as angústias da família e, quando o dinheiro falhava, as tias solteiras ajudavam. Se tinham sofrido por amor, se fora falta de sorte ou de oportunidade, isso parecia não ser importante aos 50 anos. O brilho da juventude perdera-se e, com ele, a ilusão de ser feliz de outra forma.

Os dias não eram muito melhores para as outras mulheres, as casadas. As preocupações com os filhos, os maridos rudes e, às vezes, brutos, mais o trabalho de manter as casas limpas e organizadas. Aos 50, depois de vários partos e anos de canseiras, pouco sobrava das jovens de cintura fina das fotografias do casamento e dos passeios da paróquia, mas parecia ser o percurso natural, ter filhos e depois netos. E não existia no Laranjal uma adolescente que quisesse ficar para tia de livre vontade.

Cada rapariga, fosse gorda, magra, alta ou baixa, bonita, feia ou assim-assim, sonhava encontrar depressa um rapaz simpático e apaixonado, mas o lugar era pequeno e o amor caprichoso. Os rapazes emigravam cedo ou tinham maus hábitos como beber ou eram demasiado bons, atinados e acertados e ninguém queria entrar na igreja para casar com um “vasilha torta” ou um “mosca morta”. As telenovelas brasileiras já tinham povoado as cabeças com ideias românticas.

E essas ilusões românticas atingiam o ponto mais alto quando, aí a meados de Julho, as furgonetas começavam a descarregar as bandeiras e o facho para as festas da paróquia. As costureiras como a Dona Deolinda ficavam com mais trabalho por causa dos vestidos das mordomas e a minha mãe e eu íamos à cidade comprar sapatos. Eram quase sempre brancos e dava pouco jeito quando as chuvas começavam no fim de Agosto, mas eram como deviam ser quando se ia na procissão.

O sítio preparava-se para a festa e todas as adolescentes esperavam que a vida pudesse mudar no último fim-de-semana de Julho, ali mesmo, entre a poeira do descampado, à luz fraca do facho do arraial, entre as rifas do bazar e as crianças a correr por debaixo do coreto. Os olhares podiam cruzar-se, acertar em cheio quando a banda estivesse a tocar as canções dos ABBA e o genérico do Dallas. E seria amor, uma passagem para outro modo viver, com garantia de que não seriam ainda meninas aos 50.

Marta Caires

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