Malhar em ferro frio

Esta fome desmesurada de impingir slogans, imagens, baralhar com contas de somar e de sumir (estudasses), comparar tamanhos, reclamar paternidades de ideias e até mesmo de asneiras, começa a instalar-se de forma cómoda no dia a dia de todo aquele que se liga à internet e não tem, ou não quer ter, a capacidade de ir mais além do que aquilo que os seus sentidos captam.

07 Nov 2018 / 02:00 H.

Malhar em ferro frio é uma daquelas expressões populares que nos fazem pensar naqueles que teimosamente e de forma inútil continuam a testar os limites da ilusão. Há pessoas que se empenham em perder esse tempo a tentar dar forma a uma peça que jamais irá corresponder àquilo que é pretendido.

Explicar, ouvir, sugerir, insistir, encaminhar e até mesmo aconselhar, são iniciativas que caem por terra quando, do outro lado, o recetor é cego, surdo e louco, não passando de um indivíduo que está mais preocupado em envergar, de forma orgulhosa, o manto devidamente tecido por dedos hábeis de bajuladores que estão longe, muito longe, da honestidade.

Quando o recetor teima em dar prioridade aos bajuladores em massa, de nada servem as palavras e advertências daqueles que não pertencem à esfera desses interesseiros que estão sempre prontos a estender o tapete, ou a dar pancadinhas secas nas costas.

A situação é mais grave quando o indivíduo é investido de algum tipo de poder para servir o bem comum. É aqui que surgem os tão criticados, mas sempre em crescimento, jobs for the boys ou girls, maioritariamente compostos por “rebanhos” ordeiros dispostos a entrar no matadouro, se o seu líder assim o entender.

De vez em quando, aparecem algumas “ovelhas” tresmalhadas que, por seguirem uma direção contrária, são logo alcunhadas de “negras” e colocadas de parte. O espírito de iniciativa e a vontade de encontrar uma ponte estável entre as diferenças e o estabelecido, nunca foi, nem será aceite por aqueles que estão habituados a vestir o tal manto finamente tecido pelos dedos hábeis do adulão.

Por outras palavras e citando Plutarco “dizem que a mosca do gado se prende às orelhas dos touros, tal como a carraça à do cão. O adulador, tomando conta das orelhas dos homens ambiciosos, bem fixados a elas com elogios, é de igual forma difícil de arrancar.”

E quando alguém grita que “o Rei vai nu”, o bajulado tem a tendência de entranhar-se na personagem autoritária e mimada da Rainha de Copas, mandando decapitar todo aquele que ousou desafiá-lo.

De bajulados e bajuladores está o mundo cheio e não é necessário apresentar exemplos concretos, pois cada um de vós conhece variadíssimos casos. De bajulados e bajuladores, o que interessa reter é se vale a pena os outros, os que estão de fora desse circuito, continuarem a malhar em ferro frio?

Vivemos numa era de formatação e não de informação. Esta última dá trabalho à massa cinzenta, até porque estamos num tempo em que praticamente não há tempo para quase nada, muito menos para investigar, filtrar, ponderar e analisar, com a devida distância, com a necessária isenção e imunidade às paixões “clubísticas”.

A formatação da opinião pública é feita através de meios que garantem que a mensagem é difundida num abrir e fechar de olhos. E quando somos confrontados com estas mensagens de propaganda que fariam esfumar as mais ardilosas mentes do Secretariado de Propaganda Nacional, não há tempo, nem vontade, para apurar as veracidades daquilo que nos querem impingir.

Os mensageiros que pertencem à tal horda de bajuladores profissionais, representam os diversos interesses que se dividem em facções que não hesitam em entrar em guerras bélicas de valores, ideais e de palavreado que acabam sempre por provocar vítimas nas mais vis e rasteiras campanhas de difamação.

Esta fome desmesurada de impingir slogans, imagens, baralhar com contas de somar e de sumir (estudasses), comparar tamanhos, reclamar paternidades de ideias e até mesmo de asneiras, começa a instalar-se de forma cómoda no dia a dia de todo aquele que se liga à internet e não tem, ou não quer ter, a capacidade de ir mais além do que aquilo que os seus sentidos captam.

E “como o mentiroso é livre de acomodar os seus «factos» ao benefício e ao prazer, ou mesmo às simples esperanças do seu público, pode apostar-se que será mais convincente do que aquele que diz a verdade.” Uma frase de Hannah Arendt que me leva a insistir na pergunta: e será que vale a pena malhar em ferro frio quando as máquinas poderosas das propagandas não causam a mínima estranheza no consumidor final?

O ser humano constrói-se a si próprio, tal como sugere a belíssima imagem de Bobbie Carlyle que ilustra este texto. A educação, o entendimento do mundo que o rodeia, a vontade de desenvolver cada vez mais o intelecto, são itens que tendem a cair em desuso quando nos deixamos levar por esta formatação interesseira que atua como uma poderosa anestesia e uma vez mais pergunto: vale a pena malhar em ferro frio?

Sónia Silva Franco
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