Há muitas maneiras de ter sorte

Gosta é daquele amor que se vê nos olhos da cadela, que nunca o larga e uiva de alegria quando o vê sair do horário na volta do hospital.

27 Out 2019 / 02:00 H.

Estamos aqui, o meu pai e eu, na loja onde guarda as ferramentas e há um fogão para cozinhar. A cadela dorme numa cadeira velha de vime, enquanto bebo um chá e o meu pai arruma maracujás dentro de um saco, que é uma pena estar tudo a perder-se e ninguém os comer. Um autocarro corta o silêncio da tarde, o meu pai levanta o olhar, a ver se para, há muitas maneiras de matar a solidão e ver quem passa é uma delas.

A outra é cuidar do que dá a horta, regar as flores, alimentar as galinhas ou falar à cadela. Às vezes grita, noutras é carinhoso, que aquele amor que se vê nos olhos do bicho não tem preço. O meu pai não é um maluco dos animais, tem 83 anos e nunca teve dúvidas sobre a função de cada um. As galinhas põem ovos e comem-se; os cães fazem companhia e os gatos não contam nesta história. Os bichanos, a dormir ao sol sem ligar ao que diz, é coisa moderna, o meu pai aprecia a autoridade.

Gosta é daquele amor que se vê nos olhos da cadela, que nunca o larga e uiva de alegria quando o vê sair do horário na volta do hospital. O jeito do bicho comove, mais amor do que certa gente, diz-me, antes de ir apanhar tangerinas, também levas algumas, mas algumas enchem um saco, senão cai no chão e fica tudo perdido. A cadela anda por lá, é a última que sobra de uma leva de cães de pernas curtas, os outros foram de velhos, quando já lhes custava estar de pé. O último ganiu noites a fio, mas na casa do meu pai a eutanásia é modernice dispendiosa. Aqui morre-se de morte natural.

À mesa, enquanto o meu chá arrefece, a conversa gira em torno do trabalho que, ao meu pai ainda faz confusão coisas como trabalhar para o continente sem sair daqui. Acho que tem uma vaga ideia do que é a Internet, mas já percebeu que dá para publicar fotografias e orgulha-se das que mostram os pintaínhos, o tamanho das alfaces, a fruta, as flores. Aquele é o mundo onde vive, onde disfarça a solidão e aguenta a quimioterapia, que tu sabes como isto custa às vezes. E depois sorri, aquele sorriso que é como o meu, que abre dois sulcos na cara.

Pela porta, que dá para horta, vejo a tarde a cair tão lentamente como na minha adolescência. Há coisas que não mudam como as tardes no Laranjal e esta cumplicidade que nos liga. O meu pai, eu, a velha casa desconjuntada, a fazenda e a cadela na cadeira velha de vimes, enrolada como ficam os cães quando dormem. Eu era capaz de mudar quase tudo por ali, de pintar paredes e mudar os móveis de lugar, um dia talvez faça isso, dizem que acabamos sempre por voltar a casa.

Mas isso será um dia, mais à frente na história. Agora estou aqui, na tarde de um dia de semana, a beber um chá e a falar de trivialidades com o meu pai, sem pressa, sem o que fazer além de estar onde estou, a apreciar o fim de tarde.

Marta Caires

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