Preconceito contra quem envelhece

03 Out 2019 / 02:00 H.

Seguramente que já ouviu falar em preconceitos de género mas também de raça, crenças , valores, orientação sexual ou baseada na nacionalidade e muitos outros mas todos os dias vemos isso relacionado com a idade e de tão natural já nem damos conta. Chama-se Ageismo e reflete o preconceito contra quem envelhece. O que acaba por ser um bocado estúpido porque a menos que morramos antes, todos nós passaremos por isso e lá chegaremos um dia , bem mais rápido do que alguma vez sonhámos.Mas, de facto , se atentarmos bem veremos que nas práticas mais simples , desde o trabalho, ao supermercado , na rua ou na condução , qualquer erro ou deslize de alguém com mais idade e imputamos sempre a responsabilidade à velhice como se nós muitas das vezes não cometêssemos precisamente os mesmos.

Não é preciso ir mais longe , o sinal de trânsito para idosos é o de um homem marreco pendurado numa bengala e a sua mulher também corcunda agarrada nele para não cair. Também quando se trata de dar emprego ninguém pega na experiência que pode ser tão útil em determinadas situações , achamos sempre que os coitadinhos têm mais é que ficar em casa a tricotar ou a jogar chinquilho , a definhar ou a sobreviver numa espera enfadada pela morte. Eu felizmente sempre tive amigos muito mais velhos e mais novos que eu. Adoro beber da sua experiência e muitos deles fazem mais coisas que eu. Uma vez chocou-me , numa das nossas várias saídas à noite um dos meus amigos com 69 anos foi abordado por um miúdo que lhe perguntou se não eram horas do avôzinho estar em casa, que aquilo não era lugar para ele e que era uma vergonha. Quem lhe dera a esse miúdo chegar à idade do meu amigo com tanta genica e jovialidade como ele.Mas a sua idiotice não o permitiu ver mais longe. Só alcançou o gozo de quem vai para achincalhar.

Todos nós temos pessoas com mais idade à nossa volta e por elas pedimos sempre o máximo respeito mas até a essas muitas vezes faltámos das formas mais básicas que podem existir. Desvalorizando as conversas, troçando na forma de andar ou na de pensar, chamando-lhes de retrógrados , lentos e inábeis. Como se fossem uns coitadinhos ou um género de Tamagotchi dependente que só servisse para nos dar trabalho , mudar a fralda ou alimentar. Irritamo-nos e demonstramos uma falta de paciência exasperante porque achamos à partida que estão dementes ou a caminho galopante para a senilidade e tudo o que dizem ou fazem tem uma importância relativa próxima de 0. Lembramo-nos ao final da semana ou lá pela altura do Natal e que não dêem muito trabalho que a nossa vida já é bem complicada por si.

Este ageismo é dos preconceitos mais latentes na nossa sociedade, que corrói os mais velhos , os faz sentir inúteis e inutilizáveis , muitas vezes um peso para quem está à sua volta. Isso tende a fechá-los em si próprios , a isolarem-se para não dar trabalho ou para não serem humilhados. Até na forma de não lhes querermos dar trabalho quando eles querem tanto demonstrar que podem ser úteis. Um simples almoço. E na verdade tudo isso está longe do que é a realidade. Existe tanta gente já com idade avançada no Cartão de Cidadão mas tão jovem, pessoas saudáveis que pretendem ter um espaço diferente na sociedade, activos , saudáveis e experientes. Sábios que nos ensinam e nos fascinam. No moldam e nos transformam e nós nem lhes damos muitas vezes importância. Esta integração é fundamental e ela só se faz com a ultrapassagem deste preconceito retrógrado e injusto.Porque todos lá chegaremos mas sobretudo porque é na mescla da irreverência com a experiência que está o verdadeiro equilíbrio da sociedade. É necessário criarmos condições para que tenham qualidade de vida e que possam ter oportunidades e desafios que os transformem e nos ajudem a crescer. Porque há uma altura na vida para tudo mas envelhecer mostra-nos que existem muitos caminhos para a felicidade. Basta termos oportunidade para isso.

José Paulo do Carmo
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