Entre Feiras e Populismos

É assim: temos aquilo que merecemos. No Santo da Serra há uma feira, que frequento, onde, ao que parece, são muito poucos os feirantes que pagam as rendas a tempo e horas.

28 Out 2019 / 02:00 H.

1. Livro: Jean Lartéguy nasceu naquilo a que chamou “uma daquelas famílias de camponeses pobres cujos nomes são encontrados inscritos em memoriais de guerra, mas não nos livros de história”. Depois de muitos anos de serviço militar tornou-se jornalista, especializando-se em cobrir conflitos pelo mundo todo. Foi um dos últimos repórteres a ter estado com Guevara. “Todo o Homem é uma Guerra Civil”, é um livro sobre descolonização, nacionalismo, expansão do comunismo, sociedade francesa do gaullismo dos anos 60 e a falta de “glamour” de todas as guerras.

2. Disco: Nick Cave é o Diabo. Não aquele Diabo que se opõe a Deus, mas o pequeno diabo que mora em cada um de nós. Que nos espreme os sentidos, que nos faz duvidar da bondade, mas que nos ajuda a decidir por ela. O último CD que gravou, com os seus Bad Seeds, dá pelo nome de “Ghosteen”, e é um trabalho redentor. Uma incessante procura para entender o que perdemos ao longo da vida. A maior parte das vezes, sem darmos conta disso. Um grande, grande, disco.

3. Aqui há uns dois anos e picos, um grupo de assaltantes entra calmamente nuns paióis e rouba uma série de material de guerra. O Estado-maior do Exército exonera uma série de militares que vem a reintegrar mais tarde. Um sargento de Engenharia 1 fica de castigo e não pode sair da unidade, durante 15 dias. Depois, é o que se sabe, com a aldrabice da recuperação das armas, de um Ministro que sabia muito mais do que dizia sobre o assunto e que até considerou que, “no limite”, não tinha havido roubo nenhum, de uma investigação que andou entre a PJ, a PJM e a PG da República, e...puf!, as armas lá aparecem na Chamusca. Azeredo Lopes demite-se, Rovisco Duarte pede a demissão. Uma grande trapalhada, com uma lista de arguidos que inclui o ministro e um alto comando da GNR.

Por cá, temos a trapalhada dos tesos. Um canhão com munições de salva foi dar uns tiros no Santo da Serra, por alturas de um Torneio de Golfe organizado pela Zona Militar da Madeira. Uma acção de promoção das Forças Armadas, como tantas outras que por aí se vêm. Mas, afinal, para alguns, foi um escândalo. Houvesse Secretário Regional da Defesa e já tinha caído. Quer-me parecer que esta história está, toda ela, muito mal contada.

4. É assim: temos aquilo que merecemos. No Santo da Serra há uma feira, que frequento, onde, ao que parece, são muito poucos os feirantes que pagam as rendas a tempo e horas. A Câmara de Santa Cruz, que leva o terreno alugado à Diocese, fartou-se de não receber os alugueres e, tarde, decidiu acabar com a festa. A Câmara é a principal responsável por tudo isto. Se cortasse a licença, como corta a água aos que se descuidam no pagamento, isto não tinha chegado aqui e a feira, aonde volta e meia vou comer uma agradabilíssima sopinha de trigo, não tinha levado ordem de encerramento.

Claro está que o PCP, como partido que pensa que as contas não são para pagar, veio logo defender os caloteiros. Encabeçou uma “manif” à porta da Câmara, não comunicou convenientemente a realização da mesma, e toca de entrar por um edifício público adentro, como se este fosse o Palácio de Inverno de São Petersburgo. Tudo acabou com um deputado à nossa Assembleia a manifestar a sua indignação pela brutal “carga policial” efectuada pela BIR, depois de ter dito e redito que dali ninguém saía até à noite ou até ao dia seguinte. As imagens atestam a paciência policial em, com a calma que o momento exigia, encaminhar as pessoas para o sítio onde, normalmente, se fazem manifestações: a rua.

E agora? Onde é que vou comer a minha sopa de trigo, quando for para aqueles lados?

5. Não gosto de extremismos. Não gosto de extrema-direita como não gosto de extrema-esquerda. E também não gosto de populismos venham eles de onde vierem.

Não gosto de populismo porque lhe reconheço o perigo da fulanização. Da centralização de tudo sobre uma figura, como se esta fosse um Messias. Pensem no Chega e refiram-me, de memória, uma única figura, para além da do seu líder.

Não gosto de populismos, mas reconheço-lhe uma habilidade de conseguir dizer, a quase todas as pessoas, o que cada um quer ouvir. Dizer, porque o fazer é todo um outro mundo. Perguntem a André Ventura se vai dar o exemplo e executar o que propõe no programa do seu partido sobre a exclusividade de funções de um deputado ou se vai acumular o trabalho na Assembleia da República como de “comentadeiro” desportivo?

Escrevi em tempos uma crónica nestas páginas onde elencava uma série de propostas da, na altura, Frente Nacional de Marine Le Pen. Previamente, mostrei-as a uma série de amigos de esquerda e da direita, que me disseram que assinavam por baixo a esmagadora maioria das medidas apresentadas.

Fala-se, por exemplo, da castração química, não explicando que não passa de uma forma temporária de castração que é feita por via da ingestão de um comprimido hormonal. E é temporária porque o tornar-se permanente só é possível acrescentando ao tratamento medicação usada para reduzir a libido, a actividade sexual, e para tratar cancros como o da próstata. Como se faria a aferição da toma desses medicamentos? Teria o condenado que ir todos os dias à polícia para tomá-los? Passava um carro em casa com alguém que o verificasse? Ao referir, o Chega, no seu programa que isto “pode ser cumulativo com outras penas como a prisão”, fica a ideia de que também pode ser a única condenação. Simplificar esta questão, reduzindo-a a um problema que se resolve com um “comprimido”, é correr o risco de passar a ideia da fácil resolução, deixando para trás o facto de que o agressor sexual, “tout court”, é alguém que sofre de um problema mental grave envolto numa sociopatia muito grande.

Afirmar-se em oposição frontal à tipificação do crime de ódio é tão absurdo que nem merece nenhum comentário. Tanto isto como o anterior não serve para mais do que agradar a algumas franjas de eleitorado ávidas de justicialismo.

Não gosto de Ventura porque para ele há um “nós”, o povo, o qual ele é um dos poucos que o entende, e o “eles”, os que com ele não concordando deixam de ter relevância. Eu, para o comentarista desportivo, sou irrelevante. Ele para mim não o é, porque é perigoso.

Eu, como o Chega, também penso que a prisão perpétua deve ser equacionada. Mas, se para mim isso é um assunto que deve ser tratado com cuidado e depois de um debate sereno, para os populistas serve de arma de arremesso. Lei e ordem. Prendam-se os “graffiters”, prenda-se Banksy.

A redução do número de deputados, esses “mamões” da democracia que têm um restaurante na Assembleia da República onde comem lagosta a 5€, é de fundamental importância. Reduza-se tudo para 100, que chega e sobra. Todos percebem isso e nem é preciso explicar o porquê dos 100. Feche-se a Assembleia Regional, esse sumidouro de dinheiros dos contribuintes, responsável por menos de 1% do Orçamento da Madeira. Já agora, e por arrasto, feche-se a democracia e ponham-se os boçais no governo.

A xenofobia cultural que tem no imigrante a diabolização de tudo. Num país como Portugal, a envelhecer a olhos vistos, onde daqui a alguns anos a pirâmide contributiva estará de tal maneira invertida que, se não for por via da imigração, não haverá dinheiro para pagar reformas aos que trabalharam uma vida inteira. Morremos mais do que nascemos.

A corrupção, que tem na expressão “querem todos o mesmo: mamar” o seu expoente, que existe, não tenhamos dúvida nenhuma disso, mas que serve como argumento para pôr tudo no mesmo saco: os que corrompem, os que são corrompidos e os que não têm nada a ver com isso, mas que levam por tabela. Os únicos impolutos são os “bem-aventurados” que, embora andem na política “a mamar” há já alguns anos, têm a habilidade de passar pelos pingos da chuva sem se molharem. Palavras como regime, sistema, políticos, passam facilmente a ser verdadeiros insultos. Ouvi-o muito, este ano, nas diferentes campanhas onde participei.

E tudo isto cai bem e tem terreno onde crescer. Num país de justicialistas e de indignados morais onde, ao final da manhã, em programas de televisão indescritíveis, se juntam grupinhos que “investigam”, “processam”, “julgam” e “condenam” quem querem e entendem, à revelia da justiça e dos tribunais.

Muito mais haveria para dizer. O espaço não “chega”, mas temos quatro longos anos para o fazer. Oportunidades não faltarão.

6. Ah!, e antes que me esqueça, quando vou a uma Igreja rezar (sim, eu rezo) faço-o sempre sem as mãos nos bolsos.

Nuno Morna

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