E tudo o que ficou por fazer

Parece-me simples: treinar, fazer dieta, descontrair e trabalhar. Assim, como se a vida não continuasse a mesma, com as mesmas preocupações

16 Set 2018 / 02:00 H.

Os gatos viraram as costas assim que entrei em casa, estavam ofendidos com dez dias de ausência e só vieram roçar-se nas pernas depois das malas terem sido recambiadas para a arrecadação. Vieram a custo, que não esquecem ofensas depressa e, nisso, somos parecidos, os gatos e eu. Não sou de esquecer a menos que sejam prazos, recados e assuntos práticos. E é por isso que chegar de férias implica este corrupio de pendências, dos mails que ficaram esquecidos, dá a impressão de que não vou aguentar e não me parece justo entrar de rompante na rotina.

Ainda há uma semana estava estendida ao sol e agora estou a arrumar roupa, a dobrar roupa, a tirar o pó de cima dos móveis, a encher os dias de trabalho e obrigações quando há poucos dias tinha prometido mudar de vida. As férias são como o Ano Novo, fico com a cabeça cheia de ideias, quero alterar tudo, até o corte de cabelo, mas sobretudo a atitude. Às vezes mantenho as mesmas roupas descontraídas, acho que salientam o bronzeado. Ou então deixo ficar no braço umas pulseiras de peschisbeque, daquelas compradas por impulso numa feira de artenasato.

É a derradeira tentativa de guardar as férias e as ideias que se meteram na cabeça, de que tenho de descontrair mais e começar um novo ciclo. Um que dê para aproveitar o entardecer, que me faça mais feliz e mais magra. As férias têm aquele particular de nos fazer despir na praia e de nos confrontar com o corpo que, salvo os abençoados, nunca é de modelo. E eu sei que o mais importante é o que somos, o espírito e por aí fora naquela história de que o que vale é o ser e não o parecer, mas na praia, naqueles primeiros dias, serão poucos os que não pensam que, nem que fosse só por uns dias, dava jeito ter uma estampa física de modelo.

Parece-me simples: treinar, fazer dieta, descontrair e trabalhar. Assim, como se a vida não continuasse a mesma, com as mesmas preocupações. Os dias têm as mesmas horas, o trabalho leva tempo e energia e os imprevistos sucedem-se. Daqui até às férias do próximo ano muitas coisas vão acontecer, mas agora que ainda estou a entrar na rotina, que vejo o bronzeado no espelho quero acreditar que vai ser tudo diferente. Vou ser outra pessoa, assim mais metódica, focada, com um plano para cumprir à risca e sem desvios.

Também sei que isto costuma passar em duas semanas, que é mais ou menos o tempo que leva a rotina a chegar e a tragar tudo com aquele sem fim de coisas que se fazem sempre, umas iguais às outras e são a melhor maneira de sobreviver à pressão e às inquietações diárias, ao telefone que toca com trabalho, ao dinheiro que não dá para tudo, que não estica, nem se multiplica. E quando chegar terei menos energia para descontrair ao entardecer, para ler ou para continuar o plano de treino. Nesse momento, o sofá irá abraçar-me e a rotina parecerá algo suave e bom.

E nesse aconchego estarão os gatos com o seu silêncio sábio a aproveitar o sol que entra pela janela. Talvez se enrosquem nos meus pés já esquecidos da ofensa que lhes fiz, esta de os deixar 10 dias sozinhos para voltar cheia de ideias.

Marta Caires

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