É preciso ter muita lata!

Eu percebo que o Sr. Ministro ande chateado e irritado, talvez porque a sua agenda própria não lhe corra de feição

16 Jan 2020 / 02:00 H.

Que a TAP, como empresa mais privada que pública que é, tenha pontos de vista e consequentemente decisões divergentes dos interesses dos madeirenses, eu até posso perceber. Para que entendam o porquê de ser mais privada que pública, não nos podemos esquecer que embora o Estado tenha 50% de influência nas definições estratégicas da empresa (ou seja por exemplo os mercados obrigatórios que constam do caderno de encargos e os destinos que não podem ser suprimidos), na realidade o percentual que é de domínio público (ou seja, dos contribuintes) da gestão efetiva da companhia não ascende a mais do que 5% do poder de decisão. Isto significa, que nós temos pouco ou nada a dizer em relação a preços e outras matérias adjacentes, e que o que nos resta será pouco mais do que pressionar , berrar e apertar, na esperança de sermos atendidos.

O que eu não entendo, nem posso admitir, é que um Ministro arrogante e trauliteiro se coloque do lado da companhia fazendo afirmações completamente desajustadas e retirando espaço de manobra para as negociações de uma Região, que caso não tenha ainda percebido, faz parte de Portugal e merece o mesmo respeito e consideração que as outras.Segundo as palavras de Pedro Nuno Santos, nós ainda nos devemos dar por contentes (os preços chegaram na altura do Natal e fim de Ano aos 800€ ), porque se a TAP não fosse em parte pública nós levávamos com os preços que eles quisessem , que comíamos e calávamos.

Eu percebo que o Sr. Ministro ande chateado e irritado , talvez porque a sua agenda própria não lhe corra de feição.Recebeu um presente envenenado de António Costa, com uma pasta difícil (a das Infra-estruturas e Habitação), com pouca exposição pública, o que não o favorece na guerra de bastidores que mantém com Fernando Medina para o assalto ao futuro poder no PS. Com pouco espaço para brilhar e com legitimas ambições de ser o sucessor do atual Primeiro Ministro vai fazendo de tudo e mais um par de botas para sobressair, não se coibindo de achincalhar toda uma Região e os seus habitantes. Já o tinha feito à pouco tempo num discurso na CP digno de um sindicalista e não de uma figura de Estado que chocou todos os presentes e voltou a repetir a façanha. Seria bom, no entanto, relembrar a este Senhor, que a rota Madeira é das mais rentáveis da TAP. Não sou eu que o digo, são os números. No meio de vários destinos de rentabilidade duvidosa a Madeira vai mostrando ano após ano ser uma autêntica “cash-cow”, detendo benefícios especiais e uma postura perante o mercado quase monopólica às custas do nosso Estado.

Devemos por isso, explicar a estes nossos governantes e a todos os outros entendidos na matéria, que a TAP é importante sim para a Madeira mas que a Madeira não será menos importante para a companhia.É graças a essas condições especiais de operação que também praticam os preços que praticam e que vão castigando os madeirenses a seu bel-prazer.É que nem querem saber do que dizemos.Para eles está bom e pelos vistos ainda contam com o beneplácito do Governo.Espero sinceramente que o PSD não esteja inebriado com a esmola do Hospital (que devia ser uma obrigação e não um favor) e que juntamente com os outros partidos tenham uma posição muito dura em relação a esta matéria. É gravíssimo termos um ministro que se coloca ao lado da companhia retirando margem negocial à Região. Dar a entender que a TAP está-nos a fazer um favor em voar para cá, revela falta de honestidade ou falta de conhecimento. Em qualquer uma delas é preciso ter muita lata para fazer este tipo de afirmações.

Se o Estado tem um dever na TAP é o de garantir não apenas que o hub se mantém em Lisboa mas que o serviço às regiões autónomas e às rotas da diáspora é assegurado. Isso aliás sempre foi condição sine qua non para que a privatização fosse feita. Não é isso que está em causa neste momento mas sim a forma como isso é feito e de facto já percebemos que na gestão efetiva da companhia mandamos (como diria Jorge Jesus) bola. Com estas declarações está mais que vista a preocupação que o Governo tem no deficiente serviço prestado para o destino Madeira a preços muitas vezes desadequados.Não querem saber e pelos vistos ninguém quer. Vão todos assobiando para o lado e quem se lixa para variar são os mesmos de sempre. Nós.

José Paulo do Carmo