Deus salve o reino

O Brexit é o auge da crise da identidade europeia e oxalá não seja o princípio do fim da União

08 Dez 2018 / 02:00 H.

O projeto da União Europeia, inicialmente batizada de Comunidade do Carvão e do Aço (1950), representa um dos mais prolongados ciclos de paz e de prosperidade no Velho Continente. Flagelado por duas sangrentas e mortíferas guerras e por dois totalitarismos (nazismo e comunismo) no século XX, a construção de uma Europa Unida e solidária, baseada na Democracia e no Direito, numa Economia de Mercado Livre e num Estado Social, foi um ideal dos grandes políticos europeus que lideraram a vitória na segunda Grande Guerra. Derrotado o nazismo, havia que sanar as razões que tinham levado à eclosão do conflito, reconstruir regiões e países, mas também propagar as Liberdades e os Direitos Humanos do Atlântico aos Urais, reunificar o Continente (objetivo parcialmente conseguido com a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do império soviético) e fazer da Europa, um farol da civilização. A esta tarefa entregaram-se líderes como Winston Churchill, Robert Schuman, Konrad Adenauer e Jean Monnet, entre outros, que sonharam mais alto e viram mais longe.

Em 1947, Churchill escreveu: “Quando o poder nazi foi quebrado, perguntei a mim próprio qual era o melhor conselho que podia dar aos meus concidadãos aqui, nesta ilha, e no outro lado do Canal, no nosso devastado continente. Não houve qualquer dificuldade em responder à pergunta. O meu conselho pode ser dado numa única palavra: Unam-se!”. Este conselho do velho leão volta a fazer todo o sentido, agora que o Reino Unido, fruto de calculismos falhados e de populismos ilusórios, se prepara para sair da União. O que se passou desde a convocação do referendo- um erro clamoroso de David Cameron- que ditou o abandono; as negociações entre Londres e Bruxelas que deixam muitas pontas soltas e a divisão do povo inglês, são fatores preocupantes para o Reino e para a Europa. Não sei quem ganhará com este Acordo, mas estou certo que todos os que acreditam no ideal europeu ficam a perder. O Brexit é o auge da crise da identidade europeia e oxalá não seja o princípio do fim da União.

A emergência dos nacionalismos, populismos e extremismos por toda a Europa, com o esvaziamento do centro político, é o resultado do desencanto dos cidadãos perante a perda de soberania dos Estados, das políticas financeiras austeras e restritivas, da crise dos sistemas de proteção social, da perda da solidariedade entre Estados mais ricos e mais pobres e de uma excessiva centralização e burocratização das decisões em Bruxelas. O que se está a passar na França com uma instabilidade social e uma violência imprevisíveis; a desautorização praticada pela Itália perante os Tratados e instituições europeias; a falta de liderança na Alemanha com o fim da era Merkel e a previsível saída da Grã-Bretanha, são sinais de desagregação da União Europeia. Se tivermos em consideração, o afastamento da Administração Trump do atlantismo e a tentativa de reconstrução do império russo, temos sérias razões para temer o pior, mesmo a eclosão de novos conflitos no espaço europeu, como agora se viu com a tensão militar entre a Rússia e a Ucrânia, após a anexação da Crimeia.

Se é verdade que em muitos momentos, o Reino Unido foi uma voz dissonante nas políticas europeias, algumas vezes na defesa da sua soberania e contra o federalismo, é igualmente certo que o seus líderes sempre foram preponderantes na construção europeia, como foi o caso da Senhora Thatcher, e o país pelas suas relações internacionais, em particular com os Estados Unidos, acrescentava enorme peso político à União, à qual aderiu no primeiro alargamento em 1973. Sou daqueles que torcem para que a Inglaterra se mantenha na União, seja pelo chumbo do acordo de saída, na próxima terça-feira no Parlamento- desde sempre o expoente máximo da Democracia britânica- seja através de um novo referendo onde o realismo vença o populismo, após a realização de inevitáveis eleições gerais. Sou defensor da Democracia, mas quando como parece estar, paradoxalmente, a acontecer, o voto ou as eleições põem em causa a Democracia, então há que repensar o sistema e o seu funcionamento, evitando, por meios legais, a emergência dos extremismos e dos totalitarismos.

O abandono do Reino Unido, marcado para março do próximo ano, a acontecer, não deixará de abalar a União Europeia e poderá mesmo conduzir à sua erosão política. Mas o divórcio será muito doloroso para os ingleses e para os europeus e, pese embora todas as garantias sobre os direitos dos cidadãos europeus, não deixará de afetar, negativamente, a vasta comunidade portuguesa, muita dela originária da Madeira, que ali estuda e trabalha. Para além disso, estamos perante o nosso mais antigo aliado a que estas nossas ilhas estão historicamente ligadas por laços sem fim. Também por isso espero que Deus Salve o Reino e a Europa desta separação.

Escolhas

Quem?

Os 900 voluntários do Banco Alimentar Contra a Fome na Região que recolheram mais de 25 toneladas de bens oferecidos pelos madeirenses. Pode ajudar até dia 9 através de www.alimentestaideia.pt

O quê?

O Festival Termómetro esta noite no Teatro, amanhã ás 18h no mesmo espaço o concerto da pianista irlandesa Thérèse Fahy e hoje às 20, o espetáculo “O Anjo disse...” no Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos.

Onde?

Na Camacha, é o “Começo da Festa”, esta tarde, com música, poesia, contos de Natal e a exposição “Arquinhos e Lapinhas”, numa organização da Casa do Povo que se prolonga até o Cantar dos Reis.

Quando?

Durante os meses de dezembro e janeiro, o “Natal no Palácio” de São Lourenço com visitas guiadas, lançamento de livros, exposições e música para conhecer um património único e que merece destaque.

Porquê?

“Uma Região rica cheia de pobres” - era assim que reagia à tese de quem governava de que vivíamos todos bem. Um relatório do INE vem agora dizer que 27,3% dos madeirenses está em risco de pobreza!

Como?

O CDS conseguiu que a Madeira poupasse 150 milhões de euros no empréstimo do Estado, fazendo aprovar no Orçamento uma redução dos juros. Assim, mais uma vez, se faz Política com Utilidade.

José Manuel Rodrigues Deputado do CDS na ALM