Das primeiras chuvas ao frio

Lembro-me de aguentar as aulas com os pés frios, enquanto transpirava por causa das saias de lã e das camisolas de angorá, que a minha mãe não distinguia entre um dia de chuva e um dia frio.

13 Out 2019 / 02:00 H.

Os autocarros dividiam em dois os pequenos lagos do caminho deixados pela chuva e, no quintal, a minha mãe corria a ver o estragos nas flores e preocupava-se com a barriga que se havia feito no muro de pedra atrás da casa, que mais uns dias assim e aquilo caía em cima do terraço. Lembro-me de a ver de botas de água e lenço na cabeça, com um casaco mais grosso como se a chuva fosse o mesmo que frio e não sentisse aquele bafo quente que chegava da terra molhada.

A chuva e o cheiro da chuva era bom de sentir do lado de dentro da janela, no conforto de casa, mas aqueles aguaceiros fortes de Outubro calhavam com as aulas e era preciso atravessá-los para chegar à escola e voltar a enfrentar, depois, no caminho de regresso, em autocarros cheios, húmidos, com os vidros transpirados, guarda-chuvas a pingar e os pés frios enfiados em sapatos molhados. Os dias de chuvas podiam ser românticos nos videoclips com casais aos beijos junto a lareiras; no Laranjal eram feitos de lama e água a correr fora das levadas.

Não sei se era de mim, talvez fosse que, na escola, enquanto se secavam naquele aparelho para as mãos que havia na casa de banho, as outras miúdas falavam da chuva como se fosse uma aventura. Eu não conseguia perceber o entusiasmo nos restos de lama agarrados aos tornozelos, nem naquelas roupas ainda mais desconjuntadas que a minha mãe me obrigava a vestir, uma mescla estranha do que tinha sobrevivido do ano anterior e dos restos dos saldos, onde com sorte de resgatava qualquer coisa para vestir no início das aulas.

Lembro-me de aguentar as aulas com os pés frios, enquanto transpirava por causa das saias de lã e das camisolas de angorá, que a minha mãe não distinguia entre um dia de chuva e um dia frio. A adolescência não me foi fácil por muitas razões e, entre esses muitos motivos, este foi um deles. O quadro não era bonito que a ser gordinha e estranha se somavam as manchas de transpiração que cresciam debaixo dos braços e os sapatos em risco de abrir por causa da água. E eu, nesses dias, o que mais queria era chegar a casa, não queria saber da experiência libertadora de andar à chuva.

Ou namorar à chuva com beijos por debaixo dos guarda-chuvas, como ouvia contar, enquanto comia um cachorro quente encostada a uma mesa do lado de fora da sala de convívio dos Ilhéus. Se me faltava a figura para namorar num dia normal, não queria imaginar o que seria com chuva. Muita coisa teria mudar se quisesse ter namorado para andar de mão de dada e partilhar segredos. Não seria com aquelas camisolas quentes, daquele tamanho, com vergonha de tudo e sem perceber as potencialidades românticas de um dia com chuva torrencial capaz de desfazer os muros de pedra fazenda.

Eu suspeitava que em matéria de namoros e romantismo perdia para todas as outras miúdas, até as mais feias, que, pelo que ouvia, não era só apaixonar-se, ter assim o coração em sobressalto, tinha mais. A declaração, o beijo, a aliança fininha no dedo, o ciúme e as brigas e mais uma série de complicações que, aos 15 anos, me parecia difícil acompanhar. Ou talvez fosse melhor não pensar no assunto, a minha mãe dizia que o que fosse seria e que isso valia para tudo. E era com isso a bailar-me na cabeça, com a ideia de um futuro que seria meu desse por onde desse, que fazia o caminho dos Ilhéus à paragem da Avenida do Mar e entrava no autocarro que, 30 minutos depois, me deixava à porta de casa.

Marta Caires

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