Como se fosse hoje

Nem eu seria capaz de imaginar, naqueles primeiros tempos em Lisboa, quando tudo o que tinha cabia dentro de uma mala de viagem velha, que tantos anos depois a faculdade seria a memória de muitas coisas felizes, dos meus 20 anos

13 Jan 2019 / 02:00 H.

Faltavam dez dias para os meus 19 anos quando cruzei as portas do aeroporto de Lisboa, transportava comigo tudo o que tinha. A minha roupa toda, um édredão, um maço de notas no bolso falso das calças de ganga e um anoraque para o frio. Cá fora, o sol reflectia nos vidros dos prédios e as pessoas falavam um português novo e apressado, mas o medo, a solidão, a saudade, aquele vazio que vem com a distância só chegou uns dias depois.

A saudade doía mais à noite, quando apagava a luz e ficava a ver as horas a passar no rádio-despertador. O quarto alugado, no sétimo andar de um prédio do Casal de São Brás, não tinha o calor das coisas conhecidas e os dias passavam-se num mundo desconhecido que me obrigava a empurrar a multidão para ganhar espaço quando o comboio parava na estação da Amadora. Quando tinha sorte, sentava-me à janela e via a paisagem de prédios a passar.

Eu não sabia que podia haver tantos prédios e tantas pessoas e também não sabia o que dizer aos colegas de turma, enquanto esperávamos à porta do anfiteatro. A timidez e o sotaque faziam coisas estranhas e não trazia amigos do Funchal, era apenas eu, a mala da roupa, o maço de notas e a minha vergonha. Quando calhava, encostava-me a um grupo, ficava a ouvir as conversas na esperança que alguém me estendesse um sorriso e me fizesse companhia ao almoço.

E um dia, um dia igual aos outros, daqueles que a rotina traz, uma miúda que se sentava à frente no anfiteatro onde decorriam as aulas do primeiro ano, fez isso, estendeu-me um sorriso e fomos juntas para o comboio. Eu falei de casa, ela falou do livro que andava a ler, as Brumas de Avalon, combinámos ir ao cinema e ao jantar de turma. De caminho, passámos a almoçar na cantina, a falar de filmes e fotografia, a partilhar o aperto do dinheiro e a trocar confidências sobre rapazes, quais eram os bonitos, os interessantes e os inteligentes.

Pelas férias da Páscoa, quando a minha mãe me perguntou se tinha feito amigos, não tive dúvidas. A miúda, que vivia em Sintra e tinha um casaco de xadrez quase igual ao meu, iria dividir comigo as aflições dos estudos, das fotocópias, dos exames e dos trabalhos e o gosto pelas roupas, que se comprava nos ciganos ou na loja nova da Guerra Junqueiro, que era espanhola e em conta.

A mesma pessoa com quem ainda divido confidências e preocupações numa amizade que leva quase 30 anos e que atravessa as nossas vidas como um lugar seguro. Se algo falha, é com ela que falo, se algo dá certo é a primeira saber. E vivemos com mil quilómetros de distância entre nós e nada faria supor que um dia seríamos amigas ao não ser um acaso simples como nos termos candidatado ao mesmo curso de Comunicação Social.

Nem eu seria capaz de imaginar, naqueles primeiros tempos em Lisboa, quando tudo o que tinha cabia dentro de uma mala de viagem velha, que tantos anos depois a faculdade seria a memória de muitas coisas felizes, dos meus 20 anos e dos laços que consegui estabelecer para a vida. Os amigos que fui capaz de fazer são os feitos de que mais me orgulho.

Marta Caires

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