Carta do Tio Urso para a Matilde

Viveste 3 anos intensos com uns Pais que te proporcionaram tudo, mas que te deram acima de tudo todo o Amor que tinham dentro deles para dar. E era muito

29 Ago 2019 / 02:00 H.

Hoje no “até já” que te disse revi a nossa história. Lembro-me perfeitamente do dia em que estava ao lado do teu Pai e ele recebeu a notícia que ia ser o Teu Pai. Sorriu com a boca como ele tão bem costuma fazer quando está feliz e os olhos brilharam. Dá-me os parabéns - disse-me. E eu dei-lhe e fiquei feliz por ele porque senti que eras querida, desejada e que terias a sorte de ter gente fantástica à tua volta que te iriam ajudar a crescer com a magia que te acompanhou no alto desses teus 3 aninhos cheios de tudo. Acompanhei por isso esse processo da gravidez da tua Mãe e do tão aguardado nascimento. Foste sempre a protegida de todos, carregada de alma e de personalidade. Ainda não falavas e já mandavas, com a expressão da tua carinha que foi ficando cada vez mais bonita à medida que os dias iam passando mas que já demonstrava espírito de força e de comando. Assim eram os teus gestos de chefe suprema das forças que te giravam o Mundo e te faziam companhia nos sonhos.

Desde cedo que nos picávamos um ao outro fazendo caretas que iam do franzir a sobrancelha ao balbuciar de palavras que usávamos sem que o outro percebesse mas que voavam cheias de significado. De braço em riste e dedinho apontado, qual rosa dos ventos, indicavas o caminho a seguir e a forma como querias ver concretizado e apoiado o teu ponto de vista. Antes mesmo de saberes falar já te exprimias de forma tão eloquente que raras vezes seriam precisas palavras para o entender. Éramos assim companheiros de momentos em que o teu Pai te ia buscar à escola ou, na sala da tua Mãe, sentados os dois no sofá. Pequenos mas cheios de significado. Tu dizias que não gostavas de mim e eu respondia que te adorava e assim nos irritávamos docemente um ao outro. No fim íamos os dois para casa com a certeza que gostávamos de estar um com o outro. Gostávamos um do outro. Era isso que dizia o teu adeus que fazias com o abanar da mão de um lado para o outro e o beijinho repenicado que me mandavas num gesto que levava também essa tua mão da boca para o ar. E eu sentia que esse tempo era sempre curto para as nossas brincadeiras e “discussões”.

Viveste 3 anos intensos com uns Pais que te proporcionaram tudo mas que te deram acima de tudo todo o Amor que tinham dentro deles para dar. E era muito. Tanto que eras e continuarás a ser princesa dos olhos deles. A forma como a tua Mãe te protegia e desarrumava o Mundo para fazer de ti uma pessoa melhor. A emoção com que o teu Pai descrevia as saudades quando estava longe e o afeto que retirava a criança que existe dentro dele para estar ao teu nível. Ao seu melhor nível. És por isso a razão de tanta coisa, proporcionaste-nos a todos tão bons momentos, fomos todos tão mais felizes quando te tivemos à nossa volta que esta surpresa que a Vida te tinha reservado só pode significar que estarás num lugar melhor a olhar por todos nós, a ver o que fazemos e a determinar com as tuas próprias ordens que sejamos melhores pessoas, mais dedicados aos que nos rodeiam em permanente homenagem ao que significas e ao que nos deste e continuarás todos os dias a dar enquanto não nos encontramos outra vez.

Ensinei-te a dizer a palavra Urso apontando para um vídeo do Winnie the Pooh e assumiste desde esse momento que eu para ti passaria a ser o Tio Urso. Ainda não percebi se o fazias a brincar comigo ou se achavas que era mesmo o meu nome. Um dia mo dirás. Dançámos, rimos e cantámos o “Avé, Avé, Avé Maria” num gesto que era apenas mais um que te ligava ao Mundo espiritual e a Deus. Adoravas entrar em igrejas e mostravas com orgulho a dezena que te apertava o pulso o suficiente para se tornarem inseparáveis. Quero que saibas que estarei sempre aqui para ti, que acompanho os teus Pais nesta dor mas acima de tudo no que tu representavas. A celebração da Vida. Assim mo disse a minha avó ainda ontem com a voz embargada - meu filho diz à Sónia e ao Sérgio para não terem raiva da vida, que eu também perdi um filho muito novo mas nunca tive raiva da Vida, só assim a poderão homenagear da melhor forma - Assim será, Matilde. Não deixaremos que a raiva se sobreponha a tudo o que nos deste. Estarás sempre aqui. Serei sempre o teu Tio Urso e tu a minha ursinha Matilde. Um dia voltaremos a andar de mão dada no parque.

José Paulo do Carmo
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