Brasil brasileiro

971 Mil euros do Orçamento de Estado para o Representante da República?

23 Out 2018 / 02:00 H.

1. Livro: “O Juiz e o Seu Carrasco” de Friedrich Dürrenmatt é um livro pequenino. Um policial extremamente bem montado sobre um caso aparentemente sem importância nenhuma.

2. Disco: Janita Salomé tem uma das vozes mais bonitas que conheço. A técnica que traz do cante alentejano, a amplitude vocal que tem. Tudo isto a ser ouvido no seu, já com uns mesitos, “Valsa dos Poetas”.

3. Muitos dos brasileiros que deram três vitórias seguidas ao PT são os mesmos que se preparam agora para dar a vitória a Bolsonaro. Brasileiros que votaram durante uma data de anos em socialistas (mesmo que corruptos, não deixam de o ser) vão votar agora num fascista. Ou melhor, e peço perdão aos verdadeiros fascistas, num fascistóide porque lhe faltam ideias e leituras para o poder ser de todo tornando-se, assim, numa espécie de sucedâneo do original.

Esta é, entre outras, uma das grandes questões das eleições brasileiras. Eu não acho que os brasileiros que o vão eleger se tenham tornado, assim de repente, em apoiantes de ditaduras. Muitos, dos que vão agora votar em Bolsonaro, fizeram parte dos que, entre 83 e 84, andaram nas ruas, na campanha “Directas Já”, a exigir o fim da ditadura e a volta à democracia.

Muita porcaria deve ter feito o PT de Lula, Dilma e Haddad, para que a maioria dos brasileiros se tenha voltado para uma figura moral e eticamente duvidosa achando que vai ser ele o “salvador da pátria”. Dizia-me há dias um dos muitos amigos que tenho no Brasil que vai votar em Bolsonaro porque não há escolha. Argumentando que eram 11 os candidatos à presidência, reconhecia-me que até lá havia dois que eram os melhores no seu ponto de vista, mas que não tinham hipóteses de derrotar o candidato do PT.

Não é Bolsonaro que vai ganhar as eleições do próximo domingo. É o PT que vai perder. E com isso leva o Brasil de arrasto.

Pergunto-me como é possível que uma figura como Bolsonaro ande há vinte e tal anos na política conseguindo reeleição atrás de reeleição. E só tenho uma resposta: a soberba moral que nós democratas temos achando que debater com esta gente é uma perda de tempo. É no argumento, no bom argumento que, mesmo não conseguindo que estas pessoas mudem de ideias, conseguimos que outros se lhes não juntem. Se surgiu na política há mais de 20 anos e ainda por aqui anda é porque algo anda muito mal na democracia brasileira.

Um democrata não pode deixar passar em claro um único atentado verbal de nenhum desses espécimes. Tem que se indignar quando se menorizam as mulheres, quando se fazem comentários racistas e xenófobos, quando se ameaça a comunidade LGBT, defende a ditadura, a pena de morte, o negacionismo, a indiscriminação das armas, se ataca os pobres, os indígenas, etc.. Tem que argumentar o erro e a ameaça. Temos de responder taco a taco a toda e a cada enormidade. A democracia não se basta a si própria. Tem que ser defendida todos os dias. Não pode ser tida como um dado adquirido.

E é este o bom combate.

4. Gosto de incomodar. De sentir que estou a ser incómodo. Chegar aquela altura em que vem a insinuação soez, torpe, manhosa. A conspiraçãozinha de quem é pequenino e pequenino continuará. Quando chega o maniqueísmo do “se não estás comigo é porque estás com os outros”.

Gosto do livre arbítrio, que aprendi em Agostinho, e que não me obriga a escolher da palete do preto e do branco. Por ele posso escolher a cor que quiser e entender e a tonalidade de que mais gostar.

Aprendi com Sophia que posso ver, ouvir e ler e que não posso ignorar, daí gostar de concluir. De concluir o que me der na gana sem ter que dar justificações a ninguém. Se alguns, muitos ou todos, ficam com isso incomodados, paciência. Daqui é o que levam. E só me acompanha quem eu quero.

5. E já temos Orçamento de Estado para o próximo ano. Numa primeira e rápida (e como tal descuidada) análise, com a previsão de um défice de 0,2% e estas prendas todas, só podem estar a tirar-nos o dedo do dito cujo e a metê-lo noutro lado qualquer... Mas isso sou eu que sou desconfiado. Mas com o que tenho vindo a ler e a descobrir estou cada vez mais convicto disso mesmo.

6. 971 Mil euros do Orçamento de Estado para o Representante da República?

7. O Orçamento de Estado 2019 devia vir com um aviso em letras garrafais: “NÃO TENTE FAZER ISTO EM CASA... NEM EM LADO NENHUM”!

8. Sempre que vou a casa da avó da minha filha é a beijoquice do costume... Mas nos últimos dias quando chego a casa reparo que ela anda a olhar para o meu telemóvel com um ar estranho...

9. Os meus parabéns à rapidez com que a PSP recapturou os três fugitivos do Tribunal de Instrução Criminal do Porto. A minha repulsa pela divulgação das desnecessárias fotografias do acto. O corpo policial terá sempre toda a minha solidariedade e também sou dos que pensam que a justiça não pode continuar a ser tão branda como o é, em muitos crimes que atentam contra a segurança dos portugueses. Mas imagens destas são totalmente dispensáveis. E são-no porque tresandam a “justiça pelas próprias mãos” e a bem da democracia serei sempre pelo “estado de direito”.

10. Não gosto de Orçamentos Participativos. Não gosto porque já fui enganado com um deles. Uma pessoa esfalfa-se por ter uma ideia, vai lá apresentá-la. Ela não passa. E meses depois aparece um sucedâneo em tudo igual ao que se propôs.

Mas até era gajo para passar a gostar, se uma Câmara me cedesse gratuitamente um espaço para que eu e os meus compinchas de partido (se fossemos poder em Lisboa ainda melhor) pudéssemos propor ao Participativo Nacional uma coisa qualquer que desse umas massas para, sem custos, pôr de pé um negócio. Ninguém é feito de ferro e obviamente que não há aqui nenhuma ilegalidade e a falta de moralidade ainda não é crime.

Podia ir buscar aquela história da mulher de César, mas prefiro aquele slogan da campanha de um supermercado: “sem talões, cartões e outras complicações”.

11. “Chamo ‘temperados’ aos que se atemperam às circunstâncias do tempo e do meio. São os piores, porque são mistos – têm três doses da bílis azeda dos três partidos. São a mentira convencional – a máscara. Déspotas para zelarem a liberdade, livres para glorificarem o despotismo.” - Camilo Castelo Branco

Nuno Morna

Tópicos