Ai e se...

Eu era a gorda do 7º-3, corria a custo, tinha muita fome e, depois da escola, apanhava o 12 para casa, para um mundo onde as raparigas não praticavam desporto.

09 Jun 2019 / 02:00 H.

Sempre que acabo o treino de natação e me arrasto para fora da piscina, ali, no momento em que o corpo volta a ter peso, penso na grande injustiça, no azar que tive e na falta de oportunidades. Quando tiro os óculos e a touca e seguro a toalha, naqueles breves instantes que me separam do balneário, imagino como tudo teria sido diferente se a minha mãe me tivesse deixado seguir na natação.

Teria os ombros mais largos e uma história diferente para contar, como estágios e provas, viagens numa altura em que era raro andar de avião, amigos espalhados por esse mundo fora. Talvez tivesse ido aos campeonatos europeus ou aos jogos olímpicos. Imagino muito, muitas coisa, enquanto aceno ao professor e olho para o chão, a ver se não escorrego. Se aos 40 e muitos faço 1.500 metros, o que não teria sido em nova?

E, debaixo da água quente naquele duche que me traz de volta à realidade, começo a ganhar consciência de mim, de quem sou, das minhas limitações, de como, no essencial, mudei pouco. A preguiçosa de agora existe desde sempre e, dificilmente, iria nadar e nadar e nadar durante anos e anos para ganhar uma medalha e chorar a ouvir o hino nacional. E nunca saberei sequer se tinha o talento e o espírito de um atleta de alta competição.

Nunca fui mais do que eu mesma, nunca me destaquei nas artes e sofri muito naquelas aulas de Educação Física dos Ilhéus. O professor Escórcio, que treinava uma equipa de natação no Naval, tinha o hábito de sondar os alunos, a ver se havia entre aquelas turmas de adolescentes desengonçados dois ou três com arcaboiço de atletas. Lembro-me de ouvir a conversa que fazia aos miúdos que se debruçavam no varandim do campo de futebol e lembro-me de ter ficado muito desapontada, que a mim nem sequer me perguntou se sabia nadar.

Eu era a gorda do 7º-3, corria a custo, tinha muita fome e, depois da escola, apanhava o 12 para casa, para um mundo onde as raparigas não praticavam desporto. E as que faziam ganhavam fama de maria-rapaz, afastavam noivos e candidatos a noivos, mas acho que foi nessas viagens que comecei a dar esperança à fantasia. Não fosse o mundo ser cruel e injusto e teria sido cá uma nadadora como aquelas que se atiravam à piscina azul dos jogos olímpicos.

Agora que sigo para a porta, depois do treino e do duche, consciente do meu corpo, do tamanho e da idade, a fantasia da natação, dos pódios e dos olhos rasos de lágrimas a ouvir o hino esmorece. Que adolescência teria sido, que mágoa me teria deixado cada derrota, cada momento em que seria mais uma a lutar? Fui sempre normal, a miúda na multidão, que entra e sai da escola e só os amigos lembram o nome. Nada indica que pudesse ter sido de outra maneira, mas é tão bom fantasiar, ter esta ilusão, isto de que a vida podia ter sido outra não fosse o mundo ser cruel e injusto.

Marta Caires

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