A Democracia das Bananas

14 Out 2019 / 02:00 H.

1. Permitam-me que comece este regresso manifestando a minha enorme alegria pela eleição de um deputado do IL, pelo círculo de Lisboa. Tenho a certeza do contributo determinante do João Cotrim de Figueiredo, no crescimento da causa liberal.

Depois, a enorme pena com que fico por o Carlos Guimarães Pinto não ter sido eleito pelo círculo do Porto. Lidera o partido de um modo exemplar e este resultado é muito dele.

E termino: o ano eleitoral intensíssimo, que a Madeira viveu, chegou ao fim, com as Eleições Legislativas Nacionais. Confesso que, até eu, que vivi este ano fortemente, já estava a ficar cansado.

Nas eleições nacionais ganharam todos. Outra vez. Ganhou o PSD porque foi o mais votado, embora tenha perdido, em duas semanas, mais de 8 mil votos. Ganhou o PS porque elegeu mais um deputado, mesmo não sendo a força política mais votada e perdendo, em 15 dias, quase 8 mil votos. Ganhou o CDS porque passou novamente a ser a 3ª força política e, aqui, não se percebe a comparação, uma vez que durante dois mandatos (8 anos) foi a 2ª força política e principal partido da oposição — de vitória em vitória... Ganhou o JPP porque o machado da utilidade do voto deu-lhe uma folga... até ver. Ganhou a CDU, pois recuperou cento e tal votos. Vá lá que o Bloco perdeu.

Também o Iniciativa Liberal voltou a perder. Não ganhou as eleições, nem elegeu ninguém. Recuperou, em votos, o que teve nas Europeias e é tudo.

Agora é trabalhar para a construção de uma Madeira, e de um Portugal, mais liberais, com menos e melhor Estado, com menos impostos e mais liberdade. Cá estaremos para isso.

2. Temos novo governo e mais uma catrefada de nomeações para cargos e carguinhos, como manda a tradição desta nossa “democracia das bananas”.

Obviamente que não somos uma “república das bananas”. Essas caracterizavam-se por terem classes sociais estratificadas e uma oligarquia que compreendia as elites que morcegavam em redor dos negócios e da política. A instabilidade social era grande.

Temos um dos PIB’s mais altos do país, o que nos esconde a pobreza, e somos um povo pacato e tranquilo. Tão tranquilo que alternamos entre nada e coisa nenhuma.

Há maior prova de que vivemos numa democracia disfuncional do que o próximo presidente da nossa Assembleia ser indicado pelo partido que, nas últimas eleições, mais deputados perdeu? Um partido com um grupo parlamentar facilmente transportável num “side car”? O nosso órgão maior, de onde emana a sustentabilidade democrática da autonomia, a Assembleia como centro do debate e da discussão, vai ter um presidente que mais não é do que o resultado de uma negociata incompreensível.

À semelhança das “repúblicas”, nesta “democracia das bananas”, também temos os Donos Disto Tudo.

Basta olhar para os transportes marítimos e constatar o modelo disfuncional, e a configurar monopólio, sobre o qual seguirá, dentro de algum tempo, a respectiva participação à implacável futura comissária Margrethe Vestager (Concorrência) e à comissária Rovana Plumb (Transportes).

Também não nos faltam uns quantos que, na “sombra” e a diversos níveis, influenciam a decisão política.

Na América Central, as grandes empresas ligadas à fruticultura americana construíram estradas, pontes, portos, para mais facilmente mercarem a produção.

Por cá, construiu o Estado os portos e equipou-os para, depois, os dar, de mão beijada, a privados, deixando monopolizar um serviço essencial para a região.

Por cá, “betonizou-se”, permitindo a construção de verdadeiros abortos arquitectónicos que só descaracterizam aquilo que somos.

Por cá, desautorizam-se governantes e gestores públicos para depois os ir buscar para funções de responsabilidade.

E “bananas” são coisa que não nos falta!

3. Desafiava-me, há dias, um amigo PSD a que indicasse melhor elenco governativo. Viu, em algo que escrevi, uma crítica à composição revelada do XXIII Governo Regional. Eu não tenho de indicar nada. Não sou do PSD e este partido, que ganhou as eleições, tem toda a legitimidade de indicar, para as diferentes secretarias, quem bem quiser e entender. Como eu, cidadão eleitor que não se sente minimamente responsável pela solução encontrada, tenho todo o direito de olhar e gostar, não gostar, criticar, aplaudir, o que bem quiser e entender. Se, às tantas, achar que me enganei, não tenho nenhum problema em o reconhecer.

É que a mim ninguém me perguntou nada, logo...

4. SESARAM, APRAM, IASAUDE, ARM, EEM, ISS, Inspecção Económica, Horários do Funchal, etc.. Não percebo a lógica aparelhística das nomeações, quando se deviam abrir concursos que colocassem os mais competentes a gerir a “coisa pública”. Não consigo, mesmo, perceber.

Mas foi nisto que a maioria dos madeirenses votou...

5. Gonçalo Pimenta (CDS) é dado como certo na Madeira Parques. É caso para dizer: “Pimenta nos Parques dos outros para mim é refresco”.

6. Uma Secretaria nova, fresquinha, toda para montar. Com tanto para dar. Isto promete.

7. Com tudo isto, recupero o que disse no dia 8 de Agosto, aquando da entrega da lista do Iniciativa Liberal às eleições Regionais. Após insistência da comunicação social presente, lá avancei que naquele momento a hipótese de alianças não se colocava, mas que no pós-eleições, “a ânsia de poder de alguns é tanta, que se o pedir, e mesmo se eleger só um deputado, ainda acabo como presidente do Governo”.

8. O meu aplauso para a atitude digna de Tranquada Gomes.

9. Pedro Calado, vice-presidente do Governo Regional, admitiu negociações com o Governo da República, “desde que os interesses da Madeira sejam salvaguardados”. Disponibiliza-se, assim, o PSD Madeira, para negociações pontuais com os socialistas. Isto causou muita admiração. A mim nem por isso. Penso que isto é que é o que Assunção Cristas se referia como sendo “as esquerdas unidas”.

10. Clotilde Celorico Palma, especialista em fiscalidade, deu uma excelente entrevista nestas páginas onde disse que o “peso dos impostos é asfixiante”. Cá nada! Pelos resultados eleitorais, só se pode concluir que o pessoal gosta.

11. “Tu és poesia” é uma das mais belas coisas que se podem dizer a alguém. Foi assim que o Papa Francisco se dirigiu, ao nosso Dom Tolentino, no dia em que este assumiu a sua dimensão de universalidade.

12. Tanta coisa para criticar no Livre, num verdadeiro debate de ideias, e o que se vê é uma enorme preocupação com o facto de a deputada eleita ser gaga e andar por lá, na comemoração, uma bandeira de outro país.

Devíamos estar preocupados é com o estatismo do Livre, o ser contra a meritocracia e defender quotas para tudo e para nada, com o aumento de impostos que implica o levar a cabo o assistencialismo (que nada tem a ver com estado social) que defende, com os impostos europeus, com a ideologia de género, com uma coisa chamada “primavera europeia”, que serve para tudo e mais alguma coisa, trazendo Varoufakis à discussão.

É aqui que se deve combater o Livre e não numa dificuldade de comunicação, na cor da pele ou numa bandeira.

13. “Desenvolvemos um conjunto de quatro sinais de alerta que podem ajudar a reconhecer um autoritário. Devemos ficar preocupados quando políticos: 1) rejeitam, por palavras ou acções, as regras democráticas do jogo; 2) negam a legitimidade dos seus oponentes; 3) toleram e encorajam a violência; e 4) dão indicações de disposição para restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a imprensa” - Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em “Como Morrem as Democracias”.

Nuno Morna

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