Crescimento Económico, Emprego, Produtividade e Salários

12 Jun 2019 / 02:00 H.

Os últimos 10 anos têm demonstrado que o crescimento económico já não é suficiente para fazer a diferença nos salários. Nos Estados Unidos e em quase todos os países da União Europeia, incluindo Portugal, a média dos salários pagos tem andado estagnada desde 2008, mesmo com as economias a recuperarem em termos de PIB e de criação de emprego.

Os aumentos no emprego desde a crise financeira de 2008, não levaram a um abrandamento nem a uma inversão do declínio da parte salarial do rendimento nacional total. Bem pelo contrário, a maior parte da riqueza criada desde a crise, só tem acabado por favorecer os mais ricos. Esta desigualdade pode explicar os baixos níveis de consumo que caracterizam a maioria das economias avançadas e a dificuldade que a atual política monetária europeia tem em produzir aumentos na inflação.

De acordo com um estudo da OCDE, a ultima década foi caracterizada por uma estagnação do crescimento da produtividade. Só um grupo de empresas, designadas por “frontier firms”, é que conseguiram aumentos em termos de produtividade e ganhos de eficiência significativos, mas os ganhos deste grupo, não foram suficientes para difundir benefícios em escala para toda a economia. As razões desta inércia não é clara, embora o relatório da OCDE aponte o impacto das novas tecnologias e os efeitos do trabalho em rede como parte das razões que podem justificar esta tendência. Em Portugal, a nível macro, a produtividade agregada aumentou enquanto os salários por hora trabalhada permaneceram praticamente estagnados. Isto significa que o crescimento da produtividade se concentrou num grupo restrito de empresas, e que a produtividade e os salários perderam a relação direta que tinham anteriormente. Resultado: Os salários perderam a sua função natural como instrumento de redistribuição da riqueza, e os ganhos de produtividade não estão a ser traduzidos nos salários, contrariando assim o contrato salarial que as economias liberais apoiam.

Segundo um estudo recente do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI), do Ministério das Finanças, desde que foi iniciada a recuperação económica em 2014, que 67% das empresas não aumentaram, em cada ano, os salários médios em linha com a produtividade do trabalho. Devia ser já evidente que estamos a passar por alguma forma de mudança estrutural, em que o triângulo emprego-produtividade-salários está a ser destruído. Esta mudança de paradigma está a levar à extinção da classe média aumentando assim a precariedade, não só para aqueles que caem no poço do desemprego, mas também para aqueles, dos quais destaco sobretudo os que se situam numa camada mais jovem, que enfrentam situações de trabalho atípicas, as quais foram facilitadas pelos efeitos de algumas das reformas laborais levadas a cabo durante os últimos anos.

Luís Pedro Branco