“Combater” a violência

Pontapear na cabeça alguém que está deitado, inconsciente, é de uma violência atroz. Não estamos a falar de uns simples encontrões

13 Fev 2020 / 02:00 H.

No espaço de uma semana mais dois casos de violência à saída de espaços noturnos. Não é novidade nenhuma nem exclusivo da Madeira. Um pouco por todo o País, diria até por todo o Mundo os casos sucedem-se e a primeira parte da explicação é óbvia. Os miúdos andam com as hormonas aos saltos e acham que mostrar a sua virilidade é dar uns bons “papo-secos” nos outros. Umas vezes para mostrarem às miúdas que são muito fortes e másculos, outras simplesmente só porque sim. Já sabemos que nas discotecas não se vendem copos de leite e também todos conhecemos o efeito que o álcool em excesso produz nas pessoas. A novidade nos dias que correm são mesmo as filmagens que nos mostram a realidade chocante dos factos porque este tipo de situações sempre existiu só que sempre foi “normal” e assobiou-se para o lado.

A verdade é que se começa a sair cada vez mais cedo, muitos até falsificam a sua própria identidade para corromperem o sistema e terem acesso aos espaços. Quem não sai é ridicularizado pelo grupo e consequentemente posto de parte. Posto isto os Pais são colocados perante um dilema. Educar para os perigos e muitas vezes contrariar as vontades precoces dos meninos, responsabilizá-los pelas suas atitudes e mostrar-lhes que têm consequências ( e existem diversas formas de o fazer ) ou então ir pela via mais fácil deste novo riquismo e deixá-los fazer o que lhes apetece. Começa desde cedo. Hoje em dia não se pode dizer nada aos meninos que amuam e fazem birra e por isso é mais fácil meter-lhes um iPad à frente e quando mais velhos deixá-los à sua sorte. Se algo acontecer dar-lhes sempre razão e imputar as culpas nos outros. São sempre uns coitadinhos que não fazem mal a uma mosca.

Lembro-me da mãe de um amigo meu que de cada vez que ele fazia asneiras ela lhe dizia que era das más companhias.Disse-lhe isto várias vezes até ao dia em que ele um pouco mais velho e empertigado lhe respondeu com um “ e como é que a Mãe sabe se não sou eu a má companhia para eles?”. Nunca mais lhe disse nada sobre o assunto. E a realidade é essa, os Pais passam os dias a trabalhar, assoberbados com problemas de toda a espécie até os mais ridículos e muitas vezes esquecem-se tanto de dar mais aos filhos, de dar aquilo que é mais difícil que é uma boa educação e bons exemplos que a partir de uma certa altura deixam de conhecer quem têm em casa.

Para ajudar os seguranças dos eventos que umas vezes são umas bestas e outras são simplesmente provocados e ofendidos, para se defenderem de possíveis acusações e problemas evitam a todo o custo meterem-se ao barulho, sobretudo se for fora do perímetro do espaço que estão a vigiar. Temos tido diversos casos em que vão apenas para tentar separar e vêem-se envolvidos na confusão. Ora se os meninos são cada vez mais mimados, se os espaços têm cada vez mais medo de agir, se a sociedade tem os valores cada vez mais extremados, se as bebidas e as misturas são de qualidade cada vez mais duvidosa e se existem telemóveis para o denunciar, está montado o circo perfeito para aparecerem cada vez mais casos destes. Por um lado é bom que apareçam para vermos o que por aí anda, infelizmente às custas de outros que levam por tabela.

Na realidade só existe um caminho a seguir, seja na noite, no futebol com as claques e em diversos outros casos da sociedade. É tocar-lhes onde lhes dói mais. Começar por proibi-los de frequentar este tipo de espaços e se não for suficiente criminalizar as suas ações. Mas a educação dos princípios para não chegarmos a este ponto tem que partir de casa mas mais ainda de cada um de nós. É fundamental desde cedo incutirmos os valores certos às crianças embora nem isso seja suficiente para termos a certeza que sairá dali uma pessoa exemplar. A partir de uma certa altura temos que ser cada um de nós a formar o nosso próprio caracter e a desenvolver a nossa própria construção pessoal. Que não é compatível com atitudes deploráveis e selváticas como as que vimos no vídeo. Sempre ouvi dizer que não se bate a uma mulher nem com uma flor e que não se bate em quem está no chão.Pontapear na cabeça alguém que está deitado, inconsciente, é de uma violência atroz. Não estamos a falar de uns simples encontrões. Tem que existir o mínimo de razoabilidade e de equilíbrio nas pessoas senão não existirão regras que lhes ponham cobro. E das duas uma, ou seja fecham as discotecas e qualquer tipo de entretenimento nocturno ou se começa a delinear uma estratégia para que a policia possa estar no sitio certo à hora certa nem que seja como efeito dissuasor.

José Paulo do Carmo