Coma, mas mastigue depressa

07 Nov 2019 / 02:00 H.

Os portossantenses tiveram um fim de semana cheio que nem um ovo, com viagens extra de Lobo Marinho e tudo, mas alguns continuam parados no tempo. Não se sabe bem que bicho mordeu certos empresários, mas seja lá o que for que tenha mordido, sabia de cor o ditado “Deus dá nozes a quem não tem dentes”.

Vem isto a propósito do horário de fim de semana de alguns estabelecimentos no Porto Santo. Uns, fechados a sete grades, com indicação de que voltam para o ano, outros, abertos, mas a olhar para o relógio a rezar para o barco se atrasar e não atender clientes.

Salvo raríssimas exceções, há restaurantes no Porto Santo que encerram quando os passageiros do Lobo Marinho entram, vindos das viagens da noite. Até parece que é para os “Apanhados”. E dão-se ao luxo de ser mal educados e prestar um mau serviço, quando o cliente olha para eles e diz que afinal ainda faltam dois minutos para a cozinha fechar.

Na passada quinta-feira uma amiga minha quase se atirou pelo restaurante dentro antes que o cronómetro chegasse ao zero, fazendo lembrar um daqueles concursos nas televisões nacionais em horário pré-telejornal. Jogou-se para a cadeira a uma velocidade vertiginosa e pediu a carta. “Depressa que a cozinha vai fechar”, disseram-lhe e ela, esperta como um Einstein, pediu uma tosta, proibida de olhar para o menu que a empregada segurava com unhas e dentes, para a minha amiga não ter ideias.

Os dois amigos que os acompanhavam pediram, a muito custo, dois hambúrgueres, que demoraram naturalmente a fazer e que foram calmamente degustados quando postos na mesa. Não havendo qualquer indicação de que tinham de comer no mais completo silêncio, tipo convento, os dois casais conversaram enquanto faziam aquilo que num lugar normal se faz quando se convive. Conversa-se. Ora bolas, isso seria num lugar normal. Mas há alguns lugares onde isso é pecado. Mortal.

Pediram a conta. Apareceu num ápice, tipo “Flash Gordon”, quase nem dava tempo de ver o total. Pagaram. E de repente, quando se preparavam para ir embora, ouviram o piropo mais bonito que alguém, alguma vez, conseguiu ouvir naquela ilha: olhe, para a próxima mastigue mais depressa. Não se pode, mais de uma hora para mastigar dois hambúrgueres!

É nesta ilha que, de repente, se ouvem as moscas até o Carnaval do próximo ano. Uns a remarem para a frente, outros a meterem a ré para que o barco não ande. É esta ilha que se quer sustentável que o sustento de muitos vem dos madeirenses que ainda pagam para deixar dinheiro na ilha no último fim de semana de enchente do ano. E que, tristemente, em alguns locais, ainda continuam a ser tratados como inimigos, que ainda por cima não sabem mastigar depressa.

Cristina Costa e Silva
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