Cissiparidade

16 Abr 2019 / 02:00 H.

Como se reproduzem as organizações sociais? Como surgem novas empresas, associações, organismos públicos, clubes desportivos, e partidos políticos? Já pensaram nisso?

Na natureza, é comum a reprodução sexuada, ou seja, resultante da união entre gâmetas de sexos diferentes, dando origem a um novo indivíduo cujas características resultam da combinação da informação genética de ambos os progenitores. A reprodução sexuada tem a vantagem de ser eficaz na promoção de diversidade, um aspeto essencial para a sobrevivência das espécies, pois, através da ação da seleção natural, permite evolução e adaptação às mudanças. Em organismos mais simples, nomeadamente unicelulares, como as bactérias e os protozoários, a reprodução pode resultar, simplesmente, de uma divisão, à semelhança do que sucede com as células do nosso próprio corpo. Este tipo de reprodução assexuada tem o bonito nome de cissiparidade, e dá origem a 2 indivíduos que são cópia um do outro (embora também possam ter diferenças devido a erros na divisão, resultando em mutações). Em organismos mais complexos, especialmente plantas, também ocorre reprodução assexuada, nomeadamente através de propágulos, dando origem a clones.

Haverá alguma semelhança entre os mecanismos de reprodução utilizados pelas espécies e a forma como surgem novas organizações sociais? Vejamos o caso concreto dos Partidos políticos. Se olharmos para a diversidade de Partidos ativos na realidade madeirense torna-se evidente que, nestas organizações, a cissiparidade e os propágulos desempenham um papel importante. Vejam-se, alguns exemplos. O JPP nasce de uma divisão entre Filipe Sousa e o PS. Da divisão entre João Isidoro e o PS nasce o MPT na Madeira, não esquecendo que o próprio MPT, quer a nível nacional, com Marinho Pinto, quer regional, com João Isidoro, dá origem, por cissiparidade ou propágulo, ao PDR. A divisão entre Manuel Monteiro e o CDS origina o PND e este, pela separação de José Manuel Coelho, resulta no PTP na Madeira. O Bloco de Esquerda também já deu os seus ‘frutos’, embora, até ao momento, sem grande sucesso eleitoral, fazendo nascer o MAS e o LIVRE. Até o PSD, que foi tido, durante décadas, como um partido sólido, tem dado origem, por cissiparidade ou propágulos, a novas organizações políticas. É o caso recente do Aliança, pela divisão com Santana Lopes, mas também dos projetos que saíram vitoriosos nos municípios da Ribeira Brava, com Ricardo Nascimento, e São Vicente, com José António Garcês.

Mas não é só ao nível das organizações políticas que a reprodução assexuada, por cissiparidade ou propágulos, surge de forma evidente. Por exemplo, lembro-me bem de ter sido um dos fundadores, em 1990, do Grupo de Animação Lírios do Norte, que surgiu por divisões no Grupo Folclórico da Casa do Povo de Santana. Outro caso, que me é muito próximo por ter sido seu dirigente, é o da Quercus- Associação Nacional de Conservação da Natureza, que, há poucos anos, por divisões internas, deu origem à ZERO- Associação Sistema Terrestre Sustentável, mas que, há mais tempo, já havia resultado em outras pequenas organizações.

Curiosamente, nesta analogia com a vida selvagem, a origem de novas organizações pelo processo de acasalamento, ou seja, por união, é menos frequente, mas existe. A própria Quercus, na década de 1980, surge pela união entre várias organizações locais e regionais. Nas organizações políticas também é bem conhecido o caso do Bloco de Esquerda (BE), que resultou da união entre a UDP, PSR e Política XXI, além de outros movimentos. Ainda nos Partidos, as Coligações também podem ser vistas como processos do mesmo tipo, de união, mas frequentemente não vão além de relações passageiras, encontros fortuitos, focados num interesse comum pontual, um casamento de interesses, que não resulta em descendência, sem efeitos reprodutivos, sem originar novas organizações.

Assim, parece evidente que a reprodução assexuada, por simples divisão, é o mecanismo com maior sucesso na reprodução das organizações sociais, e talvez seja por isso que as diferenças entre elas sejam poucas, tendendo a ser clones umas das outras.

Hélder Spínola