Choque económico XI: O PIB não cresce nas bananeiras

Na prática é desejável que o PIB possa crescer pela via do investimento e das exportações

12 Jun 2019 / 02:00 H.

Há uma certeza incontornável para a vida de todos nós: sem crescimento económico (PIB) é bastante mais difícil pagar a dívida, é impossível criar emprego, é insustentável a introdução de políticas sociais e não há espaço de manobra para grandes investimentos públicos. Poderia continuar a discorrer sobre uma cadeia de consequências que, potencialmente, tornam a vida dos cidadãos num exercício penoso e desconfortável mas, obviamente, julgo que já disse o suficiente para ficar claro a imensa relevância de falar sobre o tema com sobriedade, responsabilidade e competência, sobretudo da parte dos políticos. Todos eles.

A verdade é que os dados do PIB regional sofreram um forte ajustamento nos últimos tempos, não só decorrente da crise, mas sobretudo por motivos de alteração de método estatístico promovido (tardiamente do meu ponto de vista, que já alertava há mais de 10 anos para este facto) pelo Eurostat, provocando um tombo de quase 20%. Grande parte dessa queda está relacionada com uma alteração de método, tendo o Eurostat decidido que não podia fazer parte do cálculo do crescimento do produto, algumas actividades geradas por entidades do género de “caixas de correio”, retirando imputações anómalas da Zona Franca da Madeira. Que fique claro, a riqueza gerada no CINM está muito longe de se esgotar neste tipo de actividades mas, pela verdade económica e pela credibilidade da comparação internacional e inter-regional era fundamental não ter em conta alguma riqueza que apenas passa pela Região e não beneficia os cidadãos da Madeira.

Posto isto e contando com ajustamento referido, o PIB da Região ronda hoje os 4600 milhões de euros, valores de 2017. Entre 2015 e 2017 a riqueza da Região cresceu cerca de 370 milhões de euros, o que corresponde a um crescimento de 8,7%, cerca de 4,4% por ano. Este dado é muito relevante porque significa que a nossa Região convergiu com o país, que cresceu em média 2% no mesmo período. Um crescimento abaixo desta média significaria o empobrecimento da Região face ao todo nacional.

Mas então como pode crescer a nossa riqueza? Há várias formas, algumas mais desejadas que outras. Na prática é desejável que o PIB possa crescer pela via do investimento e das exportações. São as duas variáveis virtuosas que reflectem um crescimento sustentável. Mas não é possível ignorar a importância do consumo. É claro que é menos desejável porque uma propensão excessiva para o consumo pode gerar desequilíbrios seja em termos de endividamento, seja de balança comercial. Mas a Madeira tem algumas vantagens que podem ajudar a um crescimento virtuoso: o turismo (exportação) e o CINM (investimento).

Durante muitos anos, a Madeira cresceu muito à custa do investimento público. Tendo em conta a qualidade desse investimento e a forma de o financiar (recorrendo a dívida) provocou desequilíbrios orçamentais insustentáveis culminado no PAEF. Hoje é preciso dosear a dimensão desse investimento e assegurar o crescimento económico virtuoso. Turismo e CINM, que puxam pelas exportações e investimento externo, têm um papel crucial e podem contribuir bastante mais desde que devidamente enquadrados na economia regional. É óbvio que com mais rendimento o consumo privado também aumenta e ajuda a puxar pelo PIB, mas, sem uma indústria clara que possa arrastar a nossa economia, o desafio é retirar o máximo proveito do que temos e promover a diversificação da economia, também com investimento público, por exemplo com apostas na nova era digital, mas assegurando crowding in: ou seja, que esse esforço público (investimento dos contribuintes) atraia o investimento privado e não expulse (crowding out). Tudo o resto é mera ficção e demagogia.

Carlos Pereira

Tópicos

Outras Notícias