Biodiversidade na base do desenvolvimento

É ainda muito incipiente a percepção da real importância da biodiversidade e do lugar que lhe é devido

08 Nov 2018 / 02:00 H.

De entre as questões ambientais, a água e as alterações climáticas têm vindo a ganhar um reconhecimento geral como elementos determinantes para a sustentabilidade dos sistemas económicos e naturais. Os custos e resultados previstos pela escassez ou má qualidade da água e os impactos associados ao aquecimento global são assuntos plenamente incorporados na gestão quotidiana das pessoas e das organizações. Com maior ou menor compromisso, eficácia ou capacidade, hoje, não há quem ignore a relevância destas duas matérias. Água e alterações climáticas têm o seu lugar na mesa das discussões e decisões sobre o desenvolvimento, o que ainda não acontece com algo igualmente (se não mais) importante e decisivo como o é a biodiversidade.

Se bem que seja igualmente tão óbvia a importância e o papel da biodiversidade no funcionamento global do planeta ou a dependência extrema dos seus bens e serviços na regulação das condições ambientais em que se incluem, por exemplo, a disponibilidade e qualidade da água e a própria regulação climática, a biodiversidade é, ainda, o parente pobre do desenvolvimento. Continua a ser vista como algo intangível, associado quase sempre ao seu valor intrínseco ou ao simbolismo reducionista personificado numa ou noutra espécie emblemática o que não garante a atenção e acção que lhe é devida e absolutamente necessária. Daí o pouco mérito e esforço conservacionista, no seu todo, que muitas vezes se resigna a um posicionamento meramente retórico e, nem sempre exclusivamente por parte do sector político.

Ao contrário da água ou das alterações climáticas, as perturbações e, em particular, as extinções, na biodiversidade são irreversíveis. Quando se extingue uma espécie, um habitat ou um ecossistema, trata-se de um processo definitivo, irreversível e, com isso, a perda, não só dos elementos específicos, mas também das suas funções. A perda de recursos e diversidade genética ou a eliminação de num nível trófico, resultantes do desaparecimento definitivo de um elemento da biodiversidade é praticamente impercetível e os impactos daí resultantes são, por isso mesmo, desvalorizados. Mesmo quando se trata de uma espécie simbólica, que se extingue, e temos vários exemplos disso, quando muito, fica-se pelo lamento, suportado por uma percepção laxista que assume que, apesar disso, o mundo continuará a girar.

É ainda muito incipiente a percepção da real importância da biodiversidade e do lugar que lhe é devido na base do desenvolvimento e não como elemento acessório ou supérfluo a que se olha quando as outras coisas realmente importantes estão resolvidas. Os orçamentos, os meios humanos e materiais, a visibilidade e compromisso político e público, que a biodiversidade continua a (não) merecer assim o demonstram. Enquanto reservatório de capital natural, sem o qual não será possível pensar ou sustentar qualquer modelo de desenvolvimento, a biodiversidade tem que ser colocada no seu sítio, enquanto pilar fundamental do nosso futuro comum.

António Domingos Abreu