Urge cuidar da nossa casa

13 Jan 2019 / 02:00 H.

O grande tema que desperta o interesse dos filósofos pré-socráticos, foi a problemática da Natureza, a qual, pode afirmar-se, deu origem à Filosofia, bastando lembrar que a physis (natureza) é o extenso tema por eles estudado. Falar da natureza é referirmo-nos ao curso normal das coisas o que é inato ao espaço terrestre e universal. Dela, fazem parte os seres vivos em geral, humanos, animais ou plantas, as formas físicas pertencentes à geografia, como montanhas e rios e os fenómenos que expressam as mudanças de tempo, as estações do ano, etc. O ser humano embora altere, destrua e danifique, todas estas expressões, não pode alterar ou impedir que se manifestem. “A natureza compreende tudo o que a humanidade não fabricou, e uma coisa qualquer é “natural” na medida em que as suas qualidades nada devem aos seres humanos”.(1) Já o Meio Ambiente, é tudo o que tem a ver com a vida de um ser ou de um grupo de seres vivos, nomeadamente o conjunto de factores naturais, sociais e culturais que envolvem um indivíduo e com os quais ele interage, influenciando e sendo influenciado por eles. “O ambiente é aquilo em que se torna a natureza quando deixamos de acreditar nela como um objecto de afeição cultural, religiosa e estética e a olhamos totalmente como esteio para o nosso bem-estar – como uma colecção de materiais úteis e um sumidouro para resíduos”. (2) Matéria que em poucas décadas ganhou estatuto de grande preocupação mundial, é exactamente a sustentabilidade do planeta, isto é, será possível garantir a qualidade de vida às gerações futuras, explorando os recursos naturais como se eles fossem infinitos? “... os recursos naturais existem na Terra em quantidades fixas, e que, por consequência, é indubitável que o consumo os esgotará”. (3) A forma como a espécie humana tem vindo a tratar a natureza, o seu meio ambiente, tem evidentemente origem no modelo económico instalado, onde o paradigma é o crescimento económico, o qual se relaciona com a natureza de forma insensível e irresponsável, bastando para isso atentar nas inúmeras espécies de animais já extintos, na degradação da qualidade do ar que se respira entre outras questões que se situam na esfera individual e colectiva, nomeadamente a vida apressada, o stress, a falência de valores, uma “fast-live”. Mas a verdadeira origem do problema, reside numa visão e abordagem do planeta pelo homem, demasiado antropocêntrica, comportando-se não como inquilino, mas como seu dono e senhor. O antropocentrismo teve o seu início no período do Renascimento (sec.XIV a XVII), e parte do pressuposto que a humanidade, representada pela figura humana, deve ocupar o centro referencial dos nossos pensamentos e acções. O virar de página da Idade Média para a Idade Moderna, ditou uma alteração na abordagem filosófica e cultural, deixando de ser centrada em Deus, para passar a sê-lo no homem. Com o advento e o progresso da razão, aceitou-se a ideia de que o homem tornar-se-ia cada vez melhor e cada vez mais perfeito. “ ... a terra é transformada, relativamente ao ser humano, em objecto, separando-se dele, por um lado, e tornando-se possível instrumento seu, por outro”. (4) Esta forma de ver e lidar com o Planeta remete todas as outras espécies para segundo plano, desvalorizando-as, pois de acordo com esse antropocentrismo suicida, a natureza existe para ser controlada e usada pelos seres humanos. Sabemos que o ser humano é a única espécie capaz de promover alterações sensíveis no equilíbrio do ambiente no Planeta. “ A natureza não pode ser dissociada nem do tempo nem da capacidade do ser humano, o qual é, por sua vez, constitutivamente sapiens e faber”. (5) As boas noticias, são que, começou entretanto a emergir uma consciência ambiental por uma parte da população humana, quanto à sua acção e poder em relação à natureza. Finalmente começa-se a perceber que as acções levadas a cabo pelo ser humano, são fonte causadora de grandes desequilíbrios no meio ambiente, tanto nas espécies animais, como na qualidade do ambiente em si, interferindo nocivamente neste grande ecossistema que é a nossa casa e que dá pelo nome de planeta Terra.
(1) Dale Jamieson, Manual de Filosofia do Ambiente - Instituto Piaget - 2005, pag.492/493; (2) ibidem, pag.492; (3) ibidem, pag.490; (4) Joaquim Cerqueira Gonçalves, Em Louvor da Vida e da Morte - Edições Colibri - 1998, pag.30; (5) ibidem, pág.32

Fernando Rodrigues