Três conversas

10 Nov 2019 / 02:00 H.

Para início de conversa

Portugal foi mesmo mordido pelo bichinho do populismo. Julgava-se que a demora era devida a uma qualquer virtude do povo, ou a um qualquer paliativo da Geringonça, mas hoje sabe-se que, como em tantas outras coisas, foi por simples atraso.

Para início de conversa, justifica-se talvez sublinhar que estes movimentos têm qualquer coisa de novo.

O populismo recém-chegado milita num movimento global. Trump, Bolsonaro, Salvini, Orbán, o Brexit, a Frente Nacional de Le Pen e o Vox de Santiago Abascal serão dele os casos mais proeminentes.

Podem ser de extrema-direita, mas não são fascistas. E não são fascistas, essencialmente, porque o fascismo procurava o governo das elites para bem do povo, e estes partidos reclamam um governo pelo povo para mal das elites.

Onde o fascismo pedia unidade em torno do destino nacional, os populistas declaram fidelidade à vontade popular. Onde o fascismo proclama e promove um homem novo e melhorado no futuro, os populistas exaltam as pessoas comuns e vulgares que existiam no passado. E onde os fascistas se dedicam à criação de uma ordem social que combine unidade e desenvolvimento económico, os populistas denunciam sobretudo a distância, burocracia e corrupção da elite política que procuram subverter e substituir.

A diferença importa por duas razões.

A primeira, para notar que o populismo é transversal, e prospera também à Esquerda, em fenómenos espelho de todos que, por acaso, se têm saído vitoriosos. Bernie Sanders nos Estados Unidos, o Syriza na Grécia, o Podemos em Espanha, o Livre e o Bloco em Portugal, e - de forma mais diluída - o Labour de Jeremy Corbin são também derivados da vaga populista. Onde a Direita é nacionalista e autoritária nos costumes, esta nova Esquerda é nacionalista e autoritária na economia - mas ambas existem “for the many, not the few”. Ambas militam contra as forças obscuras que oprimem “os pequeninos”, as maiorias silenciosas e as minorias silenciadas que vêm resgatar da fragilidade em que o Poder as colocou.

A segunda, para reconhecer que o sucesso não resulta, apenas, de um voto de protesto. Não é tudo birra.

Um número crescente de cidadãos desconfia do estabelecimento político e económico. Quer reaver o poder reivindicativo perdido para organizações internacionais longínquas e incompreensíveis. Deseja recuperar identidades nacionais enraizadas e rechaçar personalidades nómadas e difusas. Procura trocar a incessante e perturbadora instabilidade da globalização económica e étnica pela estabilidade que conheceu no pós-guerra. Quer democracia directa, não representantes com que não se identifica e bastidores onde não participa. Prefere redes sociais, a informalidade e a “voz do povo”, em detrimento de comunidades científicas e jornalistas que considera manietadas e cúmplices na forma como especam a ignorância à porta da informação.

Os populistas não são fascistas, mas totalitários. Porque precisam da ilusão de um povo íntegro e uno, precisam da ilusão de que só eles representam o verdadeiro povo, enquanto outros o enganam. Dão-se bem com a democracia, mas mal com a oposição. Bem com restantes populistas, mal com tratados internacionais. E tudo lhes é perdoado, porque nunca prometeram ser perfeitos, mas apenas representar perfeitamente o pensamento popular.

O populismo é uma ameaça ao conhecimento, ao Estado de Direito, ao comércio internacional e à convivência democrática. Os partidos do eixo de governo continuam, por preguiça, a tratá-lo como uma curiosidade episódica, que não ameaça o seu estatuto, os compele à reforma, ou os força a sair da redoma.

Estão enganados.

Para meio de conversa

Já tudo se escreveu sobre a deputada Joacine Katar Moreira e a sua gaguez. Mas pouco se fala do que realmente interessa, que é a forma correcta de a ultrapassar. O pedido de extensão do tempo de intervenção parlamentar da deputada é bem simbólico da ideia distorcida e igualdade que vigora em algumas esquerdas. Dar tempo adicional à deputada não é uma medida universal de decência, mas uma adjudicação desequilibrada de direitos individuais, devidos apenas na medida em que são reivindicados. De quanto tempo precisa Joacine? De mais dois minutos a cada cinco? Até acabar, ainda que depois de tempo? Mas porquê, se nenhum deputado fala até acabar?

Se é humano que Joacine seja aliviada da sua gaguez, não é razoável - nem constitucionalmente prudente - que seja dispensada dos seus deveres regimentares de gestão de tempo. Porque não se sabe, nem se pode saber, quanto tempo lhe rouba a gaguez, a única forma equitativa de atribuir ao Livre uma palavra produtiva será permitir a intervenção de um intérprete, que lerá a intervenção preparada por Joacine em tempo regulamentar. Não é o ideal. Mas, se o ideal é utópico, que mais se pode fazer?

Para fim de conversa

Um recém-nascido foi encontrado num contentor de lixo em Lisboa. Foi descoberto por um sem-abrigo, e fora abandonado pela mãe, uma cabo-verdiana de 22 anos, que também vivia também nas ruas, à revelia das autoridades e centros de apoio.

Num ambiente mediático algo polarizado, vale talvez a pena reforçar que é possível compadecer-se com a vida da mãe sem a absolver do crime, assim como é possível enaltecer o gesto de quem deu o alerta sem exonerar outros desse dever fundamental de solidariedade.

O gesto da mãe é monstruoso, sobretudo atendendo às alternativas que existem. Mas a sentença que lhe passarmos ignora-a, como se a ignorando remitíssemos os pecados de uma sociedade que lhe terá criticamente falhado.

Espinoza tinha razão quando dizia - por mais e melhores palavras - que julgamos porque não conseguimos compreender.

Se julgar parece mais importante do que compreender, é porque nos esquecemos, como todos os juízes falhados, de que somos capazes de ambos.

Pedro Fontes

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