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O relacionamento com o Governo da República será determinante para o futuro da Região

05 Nov 2019 / 02:00 H.

Estando concluída a fase de tomada de posse do Governo Regional, conhecidas as caras e a orgânica, importa perspetivar que dias virão. Como irá o Governo, com o mesmo Presidente e o mesmo núcleo duro de Secretários Regionais, resolver os problemas que não conseguiram no mandato anterior? Que relacionamento com o Governo da República, sabendo que o Primeiro-Ministro é o mesmo, e que a guerra contra o pretenso inimigo externo deixou-nos mais isolados do que nunca?

Todos conhecemos o desfecho das eleições de 22 de Setembro e a geografia política que se construiu, com uma coligação entre PSD e CDS que permitiu a formação de Governo, e uma Assembleia Regional com um equilíbrio nunca visto, substancialmente diferente da legislatura anterior, em virtude dos resultados obtidos pelo PS.

Mas comecemos por falar do acordo com o CDS, que permitiu que tivéssemos um governo PSD recauchutado. E a palavra certa é mesmo essa, tal como a recauchutagem dos pneus que permite aumentar a duração de vida dos mesmos, substituindo a banda de rodagem de um pneu usado por uma banda nova conservando a mesma carcaça. E foi esse o papel a que o CDS se prestou, o de fazer parte de um Governo recauchutado, transformado que está num Partido do interesse, do seu próprio interesse, o interesse de ser poder pelo poder, não importando o projeto político, as causas, as pessoas, mas apenas os lugares, os empregos políticos e tudo aquilo que envolve a pequenez da política. E, com todas as divergências ideológicas, não tenho problema em reconhecer que o CDS tem um passado maior que essa pequenez.

Formado que está este Governo, não entro na discussão do seu tamanho. O mais importante é saber se funciona e se é eficaz: se resolve os problemas dos jovens que são obrigados a emigrar, se cria as condições para que todos tenham oportunidades, se cuida dos que mais precisam, se resolve a situação de quem não tem casa condigna, se garante que todos têm acesso aos cuidados de saúde, se promove o sucesso educativo para que nenhum aluno seja excluído. Sabendo que isto é que é importante, e reconhecendo que quem governa tem a legitimidade de escolher quem quer, não deixa de ser preocupante saber que este governo foi formado sem qualquer estratégia e visão para a Região, e que a preocupação foi a de criar espaço para acoplar o CDS, bem como saciar as clientelas partidárias do PSD agarradas ao poder há 43 anos, de modo a que ninguém levante ondas.

Há outro dado que se realça desta constituição do Governo, que é a notória incapacidade de atrair novos quadros, num governo envelhecido e sem ideias mobilizadoras, que governa só com os amigos, o que faz com que a sociedade civil não se reveja, nem se sinta atraída a fazer parte.

O relacionamento com o Governo da República será determinante para o futuro da Região. Conhecemos a postura e o histórico de relacionamento na anterior legislatura, cujo resultado foi sempre negativo para a Madeira e quem perdeu foram os madeirenses e porto-santenses. Não podemos andar constantemente neste adiar de resolução de dossiers, em que a culpa do que corre mal é sempre de Lisboa, até porque a Autonomia foi criada para termos a possibilidade de resolvermos os nossos problemas. E se é verdade que os melhores governos para a Região foram os do PS, também é verdade que há responsabilidades deste Governo da República e há compromissos que têm de ser cumpridos. Mas também há deveres do Governo Regional e a Autonomia tem de deixar de ser um muro de lamentações ou uma arma de guerrilha partidária. Merecemos mais e é urgente que se possam estabelecer pontes entre o Funchal e Lisboa, que nos façam sair da margem e nos coloquem junto dos centros de decisão.

Para a semana teremos o debate do programa de governo, não sendo politicamente admissível que tal só aconteça 50 dias depois das eleições, ainda para mais sendo praticamente o mesmo Governo. É uma Autonomia em câmara lenta, em que o PSD travou a fundo tendo o CDS como airbag, quando os desafios implicariam que acelerássemos. Seja como for, o PSD e o CDS escolheram o seu caminho e têm todas as condições políticas para governar, com a certeza de que não há estados de graça e os resultados terão de aparecer.

Como escrevi no artigo anterior, estou aqui de cabeça levantada e de olhos no futuro. Estou aqui porque acredito que a Madeira pode ultrapassar os desafios que até agora têm constrangido o nosso progresso. Estou aqui e não me arrependo, porque preferi escolher a esperança ao conformismo, a coragem em vez do medo, as convicções em vez do oportunismo, a mudança em vez da continuidade, a dúvida em vez das verdades esgotadas. Estou aqui porque prefiro as ideias ao vazio, porque prefiro debater questões do que ofender os adversários políticos, porque acredito que os madeirenses e porto-santenses merecem ter a oportunidade de ser o que desejam. Estou aqui porque fiz uma escolha. Estou aqui porque tenho esperança.

Paulo Cafôfo

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