Tabus

Os tabus quebram-se e às vezes caem de anacrónicos. Como na Ribeira Seca

15 Ago 2019 / 02:00 H.

1. Sanado o conflito entre a Diocese e o Padre Martins, foi um notável momento de emoção, a ida do Bispo D. Nuno Brás à paróquia da Ribeira Seca em Machico, um regozijo diretamente proporcional à dimensão da injustiça sentida durante todos estes anos. Para quem à data acompanhou a suspensão aplicada àquele padre pelo bispo de então, e mantida um tabu inalterável durante todos estes anos, o que esteve na sua origem terá tido muito mais a ver com o pendor cívico da atuação do Pároco da Ribeira Seca em favor dos anseios do povo, em plena atmosfera de abril, do que com alegadas prevaricações contra os cânones religiosos cristãos... Terá sido antes a sua atuação pastoral, que não agradou a um certo estrato senhorial desta terra insular, habituado ao domínio e controlo da terra e da mente das pessoas, em especial as de baixa condição nas zonas rurais, desde o povoamento das ilhas. Fazendo jus à postura de defesa da liberdade, respeito pelos direitos humanos e sentido de justiça que é apanágio seu, é fácil deduzir de que lado se colocou o padre Martins. O que fugiu ao papel tradicional e histórico da generalidade do clero nesta terra, de fiel agente da ordem estabelecida, que ao longo dos séculos, às queixas de tirania e injustiça do povo humilde contra desmandos de senhorios e feitores, em regra aconselhava resignação, orações e a promessa de felicidade no céu.

Reposta a normalidade nesta absurda contenda, remiu-se um pecado institucional, não só contra o padre Martins, mas acima de tudo contra as gentes da Ribeira Seca, marcado por episódios lamentáveis, o mais recente, a não visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima àquela paróquia... E a grandeza e dignidade das pessoas em relação a todos estes episódios ficaram demonstradas pela persistência com que souberam esperar estes anos todos, e manter-se féis à Igreja, à importância da religião enquanto cadinho de valores morais inspiradores para a vida das pessoas. E hoje é como se de um reencontro se tratasse, ficando em dúvida quem será o filho pródigo nesta história. Com esta atitude, a Igreja engrandeceu-se enquanto instituição perante a comunidade. Errou, mas remiu-se e por isso tornou-se mais humana e ao mesmo tempo mais espiritual. Os tempos são outros. E a Igreja Católica terá por certo de saber aliar os dogmas e os cânones, aos temas controversos de hoje. E ousar discutir por exemplo, o tabu que nega à mulher uma participação mais ativa na sua hierarquia e organização do culto, para além de subalterna acólita, leitora de textos na missa, ou ministra da Comunhão, negando-lhe o acesso ao sacramento da Ordem, quando se confronta com a diminuição de vocações no masculino. Nisto assemelha-se aos tabus e à misoginia de outras religiões.

2. À falta de melhor argumento para conquistar os votos, agora ditos decrescentes, e quando no horizonte eleitoral se apresenta uma hipótese de mudança, perdida a hegemonia de outros tempos, eis agitado o estafado fantasma do comunismo para assustar as gentes. Igual à mentira propagada de porta a porta em zonas rurais, a ameaçar os idosos com a perda das suas magras pensões, caso outro partido que não o de sempre ganhasse as eleições... Como se dependesse das autoridades regionais, o pagamento de pensões e reformas... Ironia do destino! Afinal qual foi mesmo o partido que não só cortou pensões e salários, como suprimiu muita ajuda social, eliminando um resto de dignidade a tantos cidadãos? É preciso não esquecer... Já cansa o argumento dos que, quem sabe herdeiros dos senhores dominadores de outrora, se proclamam donos absolutos da competência para liderar este reduto ilhéu. Em caso de dúvida, olhe-se para o exemplo das autarquias insulares, onde outras abordagens à governação estão com provas dadas, no terreno, junto das populações, apesar dos avisos de caos e desgraça tanto apregoados, e tire-se conclusões. Os tabus quebram-se e às vezes caem de anacrónicos. Como na Ribeira Seca.

Júlia Caré

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