Ser Português

O Paulo era reconhecidamente um Senhor entre a elite dos pilotos que disputam o Dakar

25 Jan 2020 / 02:00 H.

Escrevi estas linhas ainda na Arábia Saudita onde estive como Presidente do Colégio de Comissários Desportivos Auto/Camião/SSV do Rally Dakar 2020.

Deixo-as tal como as escrevi, tal como as senti enquanto escrevia.

O Dakar é o maior e o mais duro rally do mundo com cerca de duas semanas de competição e cerca de 5.000 km de provas especiais através de desertos e pistas difíceis a exigirem o máximo dos pilotos e das suas máquinas, bem como de todos os que por fora dão o seu melhor para que o rally corra sem incidentes de maior. No meu caso, sem incidentes a nível desportivo merecedoras de juízo do Colégio de Comissários Desportivos.

E, sendo uma prova dura, difícil, exigente, os acidentes podem ocorrer.

Há muito trabalho feito para minorar as suas consequências, através do desenvolvimento de medidas de segurança, implementadas tanto pela FIA (Federação Internacional do Automóvel) como pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo), tentando tornar as suas sequelas menos graves em termos físicos para os concorrentes nas várias disciplinas do desporto motorizado.

Mas mesmo assim os acidentes acontecem.

E, na sétima etapa do Dakar 2020, um acidente gravíssimo, em corrida, levou à morte um piloto de motas, um dos mais talentosos pilotos de todo-o-terreno dos últimos tempos, o Paulo Gonçalves.

O Paulo era reconhecidamente um Senhor entre a elite dos pilotos que disputam o Dakar. Profissional dedicado e experiente, dava sempre tudo o que tinha para honrar as marcas que representou, com lisura e bem-saber.

Este ano ainda não tinha falado com ele, os nossos caminhos e funções não se tinham cruzado. Mas tínhamos falado muitas vezes ao longo dos últimos anos, não só no Dakar, mas também noutras provas onde ambos estávamos envolvidos, cada um na sua função, e tinha dele a ideia que os seus colegas de profissão tanto expressaram.

O desporto é um elo que liga com força pessoas de diferentes credos pessoais, é um elo que pode ligar um País, é um elo que motiva o orgulho de pertencer ao País representado pelo desportista que disputa uma prova de qualquer disciplina fora de portas.

Competir fora do País significa representar o País e é um motivo de orgulho para quem o pode fazer, mesmo que não esteja de acordo com as orientações políticas de quem governa no momento.

Representar o País é representar-nos a todos, é representar o orgulho, é representar o ser e pertencer a uma comunidade única dentro da diversidade obrigatória que existe entre todos os que se sentem Nação.

Tenho tido a fortuna de poder representar o País em muitas ocasiões e ver a bandeira portuguesa ondulando só porque há ali um Português.

É uma emoção de difícil explicação, mas real.

Neste Dakar, faleceu um concorrente, um Português que sentia orgulho em nos representar a todos, em representar o seu País, o Paulo Gonçalves.

Passado o momento da estupefacção, da negação, do não pode ser, os Portugueses que estavam no Dakar foram começando a falar-se, a encontrar-se, a lamentar o ocorrido com um amigo.

Unia-nos um abraço, forte, sentido, seguido de um olhar de incredulidade, de um sentir que tínhamos de ser uns para os outros, com uma sensação de impotência perante um facto não imaginável, mas com uma enorme sensação de proximidade só porque tínhamos as nossas origens em Portugal.

O facto de sermos Portugueses uniu-nos na emoção, aqui de uma forma diferente da sentida quando através do desporto o País é representado em qualquer nível de competição onde se veja a Bandeira ou se entoe o Hino.

Ser Português é partilhar as memórias do que ficou na terra natal, a forma de estar comum, diferente entre pessoas mas semelhante na memória de séculos de História comum, e que se sente no abraço que é apertado quando há uma emoção comum a unir-nos.

Ser Português é ultrapassar as minudências da vida enquanto País e valorizar o que de melhor podemos ter em comum.

É difícil

(há ocasiões em que é mesmo muito difícil, tão difícil que leva tantos Portugueses a procurarem outras paragens para realizarem os seus sonhos),

ser Português em Portugal e, às vezes, é preciso um abanão para entendermos o orgulho que afinal temos em ser Portugueses.

Pedro Melvill Araújo