Saúde e Paz

09 Mar 2019 / 02:00 H.

“Levem-me ao hospital. Já não aguento mais.” - dissera eu aos meus pais, interrompendo prematuramente o fim de semana de acampamento familiar no Chão da Lagoa, atormentado pelas mais dilacerantes dores de cabeça que experimentara nos 7 anos que contava de existência. Estávamos no Verão de 1984, o Marítimo acabara de ver frustrado o seu regresso à primeira divisão, ao perder a liguilha para o Penafiel, e o Rali Vinho Madeira recebia a tripla de pilotos Toivonen/Snijers/Mandelli a acelerar nas suas estradas empedradas. Desistindo de assistir ao rali, os meus pais satisfizeram-me a vontade, conformados com aquela julgavam ser efeito do inclemente sol que se abatia sobre as serras do Funchal, e sobre as nossas cabeças.

No Hospital Central do Funchal, após uma bateria de exames, foi-me diagnosticada uma meningite viral que me empurrou para duas semanas de internamento no Hospital dos Marmeleiros. Entre as parcas memórias que mantenho dessa estadia, contam-se a cara de terror dos adultos sempre que era sujeito a uma punção lombar, o primeiro ouro olímpico que Carlos Lopes oferecera a Portugal e os carrinhos de rali que os meus pais me traziam a cada visita. Recordo-me também de um amigo que fiz, na enfermaria ao lado, com sensivelmente a mesma idade que eu e que, apesar de ter hidrocefalia, eu considerava sortudo por ter uma cortina à volta da cama. Soube que, lamentavelmente, veio a falecer pouco tempo depois.

Nesses dias, senti também o carinho com que médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar nos tratavam a todos, como se de uma segunda casa de tratasse. Desde então, apenas voltei episodicamente a necessitar dos cuidados de saúde, com particular incidência para a ortopedia, consequência de incursões desportivas mal-afortunadas. No entanto, nunca tive a oportunidade de agradecer condignamente toda a dedicação e a atenção dispensada por aqueles profissionais. Fica aqui, apesar dos anos volvidos, o meu reconhecimento, não só pela convalescença sem sequelas, mas sobretudo pelo valor incalculável que representam a proximidade, a empatia e o amor, como expoentes máximos da nobre vocação de cuidar de outrem.

Em plena década de 80, para um leigo, conceitos como “meningite”, “hidrocefalia” ou “punção” só se encontravam nas enciclopédias luso-brasileiras vendidas porta-a-porta, e o mais parecido com a internet, era um embrião tecnológico chamado ZX Spectrum 48k, parecido a um teclado com um arco-íris itálico no canto inferior direito. Actualmente, naquela que designamos por sociedade de informação, um doente (e os seus familiares) têm acesso a um manancial de conhecimentos, de sintomas a diagnósticos, de causas a consequências, de terapias a medidas preventivas e um infindável conjunto de relatos de experiências, sob todas as perspectivas.

Hoje, vivemos tempos paradoxais onde, apesar da informação estar ao alcance de todos, o acesso aos cuidados de saúde parece mais distante e os valores dissipam-se na mesquinhez do individualismo exacerbado, tão venerado nos dias que correm. Dispomos dos profissionais mais qualificados de sempre, de um ecossistema global de conhecimento, de uma rede científica com descobertas notáveis, de soluções tecnológicas inovadoras na área da Saúde e um leque de terapias inigualável na História da Humanidade e ainda assim assistimos, à nossa porta, a um desmoronar da confiança no Serviço Regional de Saúde, transformado em arena de batalha política, com repetidas substituições dos seus responsáveis, escândalos mediáticos nacionais, surtos de sarna e sarampo, bactérias que forçam a quarentenas, faltas de medicamentos, governantes que optam por ir a consultas fora da RAM e uma estranha ideia peregrina de que a solução para o nosso bem-estar, físico e psicológico, está no betão.

E nós, madeirenses, à falta de alternativas, vamo-nos angustiando com tudo isto e pedindo protecção divina para não adoecer. É uma situação insustentável. Tenham os decisores políticos o bom senso de devolver a confiança no nosso Serviço Regional de Saúde e priorizar o investimento naqueles que são os seus pilares edificadores: as pessoas. Hoje, como na década de 80, o segredo continua nas pessoas e na sua valorização. Há valores que não têm preço.

P.S.: Na semana passada, no Brasil, um menino de 7 anos, viu a vida ceifada por uma meningite bacteriana. O facto de ser neto do ex-presidente, tornou-o arma de arremesso no intrincado xadrez político brasileiro. Esta cegueira belicista, que arrasta tudo num vórtice de desumanidade para a arena do confronto político, a ponto de alguns energúmenos se regozijarem com a morte de uma criança, deve fazer-nos reflectir a todos.

Miguel Silva Gouveia Vereador da CMF
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