Previsões difíceis

13 Fev 2019 / 02:00 H.

Prever economicamente 2019, é sem dúvida um desafio muito apreciado por economistas nesta altura do ano. A saída do Reino Unido da União Europeia poderá ser um caos. As tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos podem disparar com uns quantos tweets noturnos de Trump. Um Banco Italiano poderá entrar em falência. A União Europeia poderá multar o Facebook, a Amazon ou a Apple em milhares de milhões de euros. O PS poderá ganhar pela primeira vez as eleições legislativas regionais na Madeira. Há coisas muito prováveis de acontecer em 2019, mas o mais certo, é que sucederão muitas coisas que não tinham sido previstas por ninguém, porque este ano está coberto de numerosas variáveis de grande volatilidade.

Todos os anos acontece algo que não aparecia nas previsões dos analistas e que se revelaram determinantes para indústrias e economias. No início de 2018, ninguém esperava que surgisse um movimento radical capaz de colocar Paris numa verdadeira convulsão económica, social e política. Ninguém esperava o colapso das criptodivisas ou que um partido conservador de extrema-direita se consagrasse como força política em Espanha. Poucos anteviam a derrota dramática nas eleições regionais do partido de Merkel e a detenção de Carlos Ghosn, presidente de Renault-Nissan, que colocou em causa a maior e mais poderosa aliança na indústria automóvel.

Mas quais os acontecimentos que ninguém está à espera, que irão sacudir os mercados e ditar o futuro económico nos próximos meses? O que poderá estar ainda na sombra que nos surpreenderá em 2019? A desaceleração económica durante os próximos meses é evidente. Em linha com a maioria dos organismos económicos, o Fundo Monetário Internacional reviu em baixa o crescimento global. No entanto, a possibilidade de cairmos numa recessão não pode ser posta de parte. Fatores como a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, o Brexit, crises eleitorais e tensões políticas um pouco por toda a Europa, bem como no Brasil e nos Estados Unidos, podem ditar o rumo da economia em ambos os lados do atlântico de uma simples desaceleração para uma grave e profunda recessão.

A Alemanha, que normalmente não nos dá surpresas e tem vindo a liderar a Europa com o seu modelo de estabilidade e prosperidade, começa agora a mudar o paradigma. O pior resultado (desde 1950) da CDU numas eleições regionais fazem prever um cenário complicado, com o escalar das tensões políticas entre o partido de Merkel e os Verdes, uma vez que estes estão cada vez mais a converter-se na principal força política do país e começam a ser vistos internamente como uma força de estabilidade. Se a frágil coligação de Angela Merkel se desfizer, e a CDU sair de plano, isto desencadeará novas eleições e os Verdes poderão emergir como o segundo maior partido do espectro. A possibilidade de existir um governo alemão liderado por um partido como os Verdes, com uma visão mais radicalizada sobre questões ambientais, teria um forte impacto na pujante indústria desse país e dificultaria o seu domínio na indústria automóvel e abriria portas a que a China lhes roubasse aquela que é a sua joia da coroa industrial.

Claro que há muitos outros acontecimentos que nos podem surpreender em 2019. Jair Bolsonaro pode conseguir desbloquear o enorme potencial económico do Brasil. O Reino Unido pode cancelar o Brexit. A Daimler (fabricante da Mercedes) pode avançar com uma fusão com outras empresas alemãs para travar a investida da china na indústria automóvel. A Google poderá comprar o Facebook, criando um gigante com enorme potencial para os seus acionistas. Mas o único que podemos ter a certeza, é que a realidade supera sempre a ficção e que o mais certo, é que já veremos.

Luís Pedro Branco