Para Inglês ver

15 Dez 2016 / 02:00 H.

Na língua portuguesa é comum utilizar-se a expressão “para Inglês ver”, expressão esta com várias explicações para a sua origem mas cujo significado está bem definido: algo para fazer de conta, só para as aparências, de fachada. Sendo esta expressão utilizada em Portugal e no Brasil, a sua origem deve remontar ao grito do príncipe D. Pedro, filho de D. João VI, nas margens do Ipiranga, sendo muito plausível que efetivamente esteja associada às leis de fachada sobre a abolição da escravatura aprovadas para ludibriar os ingleses quando, na prática, o tráfico humano continuava.

Na Madeira esta é também uma expressão muito cara ao nosso linguajar, não porque a sua origem esteja aqui centrada nem tão pouco pela importante presença inglesa nesta região, simplesmente porque, com frequência, ela faz-se necessária às nossas conversas diárias. Efetivamente, a nossa sociedade insular tem sido marcada por intervenções e anúncios espampanantes que prometem o Céu na Terra mas que, mais tarde, se vêm a revelar meros exercícios de ‘show off’, ou seja, muita parra e pouca uva. Foi assim no longo exercício de governação de Alberto João Jardim, que terminou numa economia tipo castelo de cartas e numa dívida avassaladora, e continua a ser assim na atual governação, que, por exemplo, nos abana com um novo hospital para que não falemos da falta de profissionais de saúde ou vacinas nos nossos velhinhos hospitais e centros de saúde.

O truque para que a estratégia ‘para inglês ver’ continue a funcionar é o da ‘fuga em frente’. Para que ninguém questione se os objetivos anteriormente propostos foram alcançados, anunciam-se constantemente propostas, projetos e objetivos para o futuro, mantendo a comunicação social e os cidadãos focados num horizonte edílico e nunca na realidade do presente ou nas razões do passado que nos trouxeram até aqui. Quando a nossa sociedade é confrontada com algum problema, poucos estão interessados em analisar o que correu mal de modo a que o problema seja corrigido e não se volte a repetir. Somos de imediato bombardeados com recuperações, reconstruções, reflorestações, milhões, comissões, e a prevenção vai-se esfumando no tempo, deixando tudo na mesma. Todos nós nos recordamos das centenas de milhões de euros que têm vindo para a Madeira nos últimos anos à conta das catástrofes e da forma como foram, e continuam a ser, derretidas em intervenções faraónicas sem que a Madeira esteja hoje menos vulnerável, sendo obsceno que famílias que perderam as suas casas ainda não tenham sido realojadas definitivamente e outras paguem rendas para viver em habitações que foram construídas com dinheiro de donativos.

Olhando para planos e estratégias com algum tempo é bem visível que foram aprovados só ‘para inglês ver’. Por exemplo, o Plano Estratégico de Resíduos da Região Autónoma da Madeira, um documento de 1999, previa que no corrente ano atingíssemos metas de reciclagem de 35%. No entanto, na realidade, este ano não devemos ir além de uma taxa de reciclagem de 20%. O mesmo instrumento estipulava que nesta altura estivéssemos a reciclar 40% dos resíduos orgânicos que produzimos mas o que é facto é que a estação de compostagem que poderia permitir atingir esse objetivo está fechada há vários anos e temos zero de compostagem na Madeira.

Hélder Spínola
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