Os pés e os dentes!

Não imaginam quantas queixas, sinais, sintomas, disfunções ou doenças, começam em cima ou começam em baixo!

17 Mar 2020 / 02:00 H.

Uns em cima e outros em baixo. Não imaginam quantas queixas, sinais, sintomas, disfunções ou doenças, começam em cima ou começam em baixo! Cada um destes dois constituintes do nosso organismo, pés ou dentes, tem a sua função, com uma importância fundamental que merece ser explicada. Vou começar por baixo, pelos pés, que têm como funcionalidade principal o apoio e a locomoção do nosso corpo - quer o individuo pese cem ou cinquenta quilos - fazendo o equilíbrio da marcha nuns e noutros, ... sabendo-se que o “esforço” dos pés que transportam cem quilos é sempre mais difícil daquele que transporta cinquenta - nem que seja só pelo factor ponderal. E nos pés temos as unhas, com as suas doenças e deformações, a pele, com as suas alterações adaptativas - como são as calosidades, as bolhas, etc. E muitos dos problemas dos pés, começam nas crianças, quando apresentam alterações morfológicas, como o pé plano, ou pé “chato”, ou desvios para dentro ou para fora no decorrer da marcha simples, sendo mais evidente na corrida - que podem ser corrigidos, prematuramente com palmilhas correctivas adequadas, após uma avaliação e um estudo dum especialista em Podologia. E estas pequenas alterações, quando corrigidas precocemente, poderão evitar muitos problemas noutras regiões do corpo, porque este funciona como um bloco, seja na marcha ou na corrida, evitando assim, lesões por má postura ou má técnica. Uma avaliação biomecânica do pé, ou um estudo dinâmico e estático, irão fornecer informações importantes, para corrigir tudo aquilo que pode e deve ser corrigido. Refiro-me aos desportistas em especial, particularmente aqueles que fazem competição ou seja, os atletas federados e na generalidade para toda a gente ... que muitas vezes tem dores nas costas ... e o problema afinal está nos pés.

Um adulto dá cerca de 5 a 6 mil passos por dia, o que equivale a dar 5 voltas ao planeta Terra durante a sua vida, ... e as mulheres têm 4 vezes mais problemas nos pés do que os homens - por causa do uso de sapatos altos. Percebe-se assim, que uma avaliação dos pés é necessária, explicando muitas queixas, que são anuladas com palmilhas, umas correctivas, outras compensatórias e ainda outras preventivas. Particularmente e voltando ao caso das crianças é importante avaliar se há “defeitos” sempre com correção possível, e assim vão produzir um crescimento orgânico sem sobrecargas, impedindo disfunções futuras.

E saltamos para o andar de cima, falando agora dos dentes, cujo funcionamento, principalmente na mastigação, tem de ser muito correcto, sem sobrecargas, sem disfunções oclusais, ou seja, relativas ás movimentações entre as duas arcadas dentárias, superior e inferior, ou então disfunções músculo-esqueléticas, por entre a variada musculatura que interfere em maior ou menor plano na fisiologia deste acto da mastigação. Recordo ter falado recentemente com um treinador brasileiro - que trabalhou em Portugal, muito particularmente na Madeira - que me confidenciou estar a dirigir um clube de futebol na sua terra natal, usufruindo de dois dentistas a tempo inteiro com o seu plantel, o que é de uma importância extrema na actividade desportiva seja nesta situação de alta competição, seja na vulgar actividade desportiva de lazer ou tempos livres. E nos dentes, o seu posicionamento, é fundamental, evoluindo desde a criança até á idade adulta, sendo importante neste espaço temporal, prevenir, corrigir e tratar, para que não ocorram alterações na fisiologia e mecânica da mastigação, porque, além de interferir com as arcadas dentárias, interferem com as articulações temporo-mandibulares e com musculatura esquelética adjacente, por exemplo, com os músculos da coluna cervical ou do pescoço. Com repercussões no corpo, com assimetrias funcionais, muito comuns ao nível dos ombros, com influência na postura da cabeça, desencadeando uma transmissão deste transtorno, para os membros superiores, tronco e membros inferiores, fazendo jus, á contínua cadeia anatómica funcional, existente desde a cabeça até aos pés. Assim, devido a problemas funcionais ocorridos durante a mastigação, por mau posicionamento das arcadas, surgirão fácilmente perturbações músculo-esqueléticas em todo o corpo. Princípio este que é transportável aos defeitos dos pés, havendo também repercussões no trajecto anatómico, até á cabeça. Conhecendo o fenómeno desportivo, com a alta competição e com essa necessidade imperiosa de se atingirem patamares e prestações de excelência, percebemos, que os dentes dos atletas, são uma parte integrante na avaliação médico desportiva dos praticantes, que depois será dirigida para as competências da medicina dentária, seja Estomatologia, seja Ortodontia. Não é por acaso, que os médicos especialistas ou pós-graduados na área da Medicina Desportiva, têm formação, com grande relevância, na avaliação sumária dos dentes, cuja má condição é razão de pausa desportiva para avaliação nessa especialidade e tratamento.

Á laia de conclusão, quer os problemas dos pés, quer os problemas dos dentes, interferem muito na preparação dos atletas, no seu desempenho, nas suas performances, no seu futuro desportivo, com defeitos que provocam disfunções, que são corrigíveis num “timming” adequado, para não interferir com os treinos e com as competições. E o que será ideal e até mais lógico e consensual, será fazer as correções e os tratamentos - num e noutro caso - justamente até ao patamar inicial da idade adulta, acompanhando o processo de crescimento do praticante desportivo até ao final.

P.S. Será que depois de sanada esta epidemia mundial, os portugas vão passar ... todos, a lavar as mãos quando vão ao “water closet” (WC)?

José Manuel Morna Ramos