Optimismos e mentiras

16 Nov 2019 / 02:00 H.

Hitler disse que “se dissermos uma mentira suficientemente grande e a repetirmos sistematicamente, as pessoas passarão a aceitá-la como verdade. Mas a mentira só pode ser mantida enquanto o governo conseguir isolar as pessoas das consequências (...) da mentira. (...) porque a verdade é a inimiga da mentira e, por extensão, a verdade é inimiga do governo”.

Durante anos disse-nos o Governo Regional que tudo estava bem no turismo, e que o sector era sólido e o suporte da economia regional. Que o crescimento era sustentado, e – particularmente nos últimos anos – que era baseado nas qualidades intrínsecas da ilha.

A tour operação e o modelo dos charters têm os dias contados. Os anos de crescimento eram sustentados nos problemas dos nossos concorrentes da bacia do Mediterrâneo. O modelo das grandes unidades hoteleiras foi ultrapassado. Os destinos indiferenciados estarão condenados à escravatura de servir o bas fond do turismo europeu, e à incapacidade de motivar e compensar os seus trabalhadores. Os jovens emigram, e os residentes serão sistematicamente mais velhos

Acho que com um novo governo está mais que chegada a altura de começar um novo ciclo. Um ciclo que coloque o destino mais independente dos grandes tour operadores que, obviamente, protegem o seu negócio, e as suas margens. Para quem interessa esmagar as margens, e maximizar os (seus) lucros. Aumentar os proveitos, promover a desintermediação, e procurar incessantemente a qualidade. Isto implica valorizar os profissionais qualificados – protegendo-os e remunerando-os de forma adequada), e promover a requalificação dos que não têm as habilitações mínimas que garantam essa qualidade. Mas não é fazendo de conta e inventando leizinhas locais para enganar papalvos. É criando legislação exigente e impondo as regras, fiscalizando o seu cumprimento e punindo severamente os prevaricadores.

Porque a qualificação do destino, que não é nada mais nem nada menos que garantir a sua sobrevivência, não se compadece com meias medidas e com paliativos. Exige coragem, determinação e vontade de mudar o que está mal. E há muitas coisas mal.

Há a obsessão pelo número ao invés da obsessão pela qualidade. Por exemplo, os navios de cruzeiro que encostam ao cais são escolhidos pelo número de escalas ao invés do rendimento que geram. E isso quer dizer que damos primazia aos Aida, um mercado que interessa muito pouco, em vez de favorecer as marcas mais premium.

Isto permitirá, mantendo os rendimentos, reduzir o número de visitantes, diminuir a pressão turística, reintegrar serviços externos na esfera dos hotéis, melhorar padrões de qualidade, mudar a imagem do destino, e aumentar os níveis de satisfação. Diminuir a cimentização, proteger a natureza, reduzir o ruído.

Permitirá ainda criar transportes públicos que levem os turistas aos passeios a pé na montanha, impedindo que todos os dias haja centenas, para não dizer milhares, de carros a invadir as nossas serras e florestas. E tornando as nossas atracções, nomeadamente locais como o pico do Arieiro, o Ribeiro Frio, as Queimadas, o Rabaçal, entre outros, menos atraentes para viaturas de aluguer. Estabelecer taxas pela utilização dos percursos a pé, e utilizando estes proveitos para os manter, e para criar (melhores) estruturas de apoio. Se se paga 30 ou 40 euros por um carro, e mais 20 ou 30 de combustível, porque não pagar 5 por um dia na montanha? Um cartão, disponível nas tabacarias, que teria de ter a data marcada. Inspecção... tem cartão? Siga. Não tem? Paga cem vezes o valor. Garanto que ia haver uma corrida às tabacarias... As agências que promovem estes percursos também os deveriam ter e distribuir pelos clientes. Imputem-lhes o custo extra, e expliquem-lhes o que é e para que é usado...

Será que o novo governo está à altura? Tenho muitas dúvidas. Penso que lhe faltará a coragem e a convicção que este é o caminho certo. Mas poderá a Madeira dar-se ao luxo de, mais uma vez, adiar uma decisão? Penso que não, e que mais adiamentos nos levarão para cada vez mais perto do abismo. Aliás, já antes das eleições surgiram notícias de quebras de procura e de rendimento, e da falência de operadores importantes. Não estou optimista...

Roberto Loja

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