O desacordo com Paris

Precisamos de

07 Nov 2019 / 02:00 H.

A saída, apesar de mais que esperada, dos Estados Unidos da América, relativamente ao acordo de Paris sobre as alterações climáticas abre uma nova fase neste processo de dimensão global. Num momento em que, aparentemente, poucos duvidam da necessidade de medidas objectivas (e eficazes), capazes de reverter a tendência do aumento da temperatura global e das consequências directamente associadas a esse factor, a decisão da administração americana, no mínimo, lança questões sobre o sucesso e futuro do denominado acordo de Paris. O acordo de Paris, não tanto pela sua capacidade de se impor como mecanismo imperativo, que é, em boa verdade, nula, não deixa de ser o instrumento de referência que determina a aceitabilidade dos modelos preditivos do clima futuros, de curto e médio prazo. Enquanto gerador desse quadro referencial, transforma-se, em si mesmo, no mecanismo que vincula todos os países, individualmente ou organizados em grupos geográficos ou sob outros temas organizadores no que concerne ao entendimento da situação. O mesmo não se pode dizer quanto à resolução porque o desacordo reside noutra dimensão, mais operacional, relativa às prioridades, às medidas e ao grau de investimento que cada um deve assumir, em favor do interesse comum, a estabilidade global necessária para um futuro sustentável. Países pequenos, capazes de aproveitar algumas disponibilidades tecnológicas e alternativas energéticas menos dependentes dos combustíveis fósseis são os grande entusiastas de protagonistas do acordo, o que se compreende, por duas razões. A primeira porque lhes permite escapar à dependência e influência de terceiros e, a segunda, porque mesmo que escapem, a sua diminuta expressão não causa danos de maior, facilmente compensados pelas economias emergentes, muitas delas maiores que as estrelas do acordo de Paris. O continente africano e a região da Ásia-Pacífico geram clientes muito mais interessantes e carentes e, o tempo estimado para uma transição energética verdadeiramente global e mais sustentável parece afastar-se em demasia, relativamente aos cenários anteriormente optimistas. Acresce que algumas das ditas alternativas têm vindo a mostrar-se menos bondosas quanto aos impactos ambientais a elas associados, evidenciando, igualmente, uma inaceitável associação a circuitos pouco transparentes em matéria de corrupção.

Assim sendo, Paris revela-se um sólido desacordo quanto ao que cada um entende ser o modo de fazer, mesmo que o cenário seja aceite como sólido. Há, ainda, um longo caminho a percorrer e que melhor será feito se menos dramatizado, menos focado em determinar quem são os bons e os maus. Uma lógica de processo, de trabalho e de disponibilidade para encontrar modelos adequados a cenários complexos em lugar da valorização do anúncio à pressa e da consagração de líderes efémeros que parece, por vezes, ser mais importante do que o objectivo, daria mais sentido ao que se esperaria de um acordo como o de Paris. Precisamos de um acordo global, no seu objectivo e no seu sentido. O que temos, por enquanto, serve bem Paris e pouco mais.

António Domingos Abreu
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