Nova Centralidade Política

20 Set 2019 / 02:00 H.

É cada vez mais frequente encontrarmos pessoas descontentes com a política e com os políticos. Já cansa ouvir dizer que “os políticos de hoje em dia estão cada vez piores”, que “os políticos são todos uns corruptos” ou que “os políticos são todos farinha do mesmo saco”. Mas estes comentários não acontecem por acaso. Acontecem porque entramos numa espécie de cultura política, em que só de gestão do imediato importa. Os nossos dirigentes políticos limitam-se a gerir os problemas de ontem sem ter em consideração qualquer forma de pensamento crítico ou de reflexão a longo prazo.

Se olharmos com atenção para os debates eleitorais das últimas semanas, a primeira conclusão que podemos retirar, é que já não há nada mais extremo que o extremo centro. A convergência e o consenso foram as palavras de ordem nestes debates, e é por vezes difícil perceber quais as verdadeiras diferenças entre os partidos do nosso panorama político. Perceber o porquê deste tipo de comportamento é fácil! O debate entre a direita e a esquerda desapareceu devido à preguiça intelectual e ao oportunismo mediático dos políticos. Isto tem levado a uma certa combinação ou convergência ideológica de valores entre a direita e a esquerda que resultam na ausência de medidas claras e coerentes com as ideologias partidárias de origem. A sociedade está a mudar e os partidos também. Interessa mais ser atrativo nas redes sociais, fugir das questões de fundo e fraturantes, e evitar a todo o custo o debate de ideias. Os políticos tentam assim passar por entre os pingos da chuva, procurando alguma centralidade nos temas mais mediáticos que vão surgindo, mas sempre tentando convencer as pessoas de que o que está mal nas suas vidas é culpa delas próprias, ou tem origem em fatores externos que lhes são completamente alheios.

Esta campanha política tem demonstrado que os extremos já desapareceram e que praticamente todos os partidos confundem centro com centralidade. Não é que se tenham afastado dos seus lugares do espetro político, mas tentam criar uma nova centralidade, reduzindo a distância entre eles e os restantes adversários, colocando em modo de espera os princípios ideológicos que os caracterizavam. O resultado desta centralidade é aparentemente positivo, porque tem gerado uma maior sensação de proximidade que os ajuda a estar presentes em núcleos onde normalmente não estavam, e ajuda-os também na divulgação da sua imagem, uma vez que não existem assim tantas diferenças nas mensagens. No entanto, parece-me que as desvantagens são muito maiores. Esta busca pela centralidade, reveste o discurso político com um padrão retórico simpático e fácil de entender, mas completamente vazio no conteúdo, que em nada ajuda os cidadãos a perceberem quais os reais problemas da sociedade e de quais as melhores soluções para os resolver. Este discurso de convergência e todo este consenso político, só faz baralhar as pessoas, e o resultado disto é o aumento do número de indecisos que temos verificado nas últimas sondagens, que muito provavelmente poderão acabar em abstenção.

Esta nova busca da centralidade política confunde os próprios partidos, que muitas vezes acabam por se legitimar uns aos outros, deixando também o eleitorado num perfeito estado de indecisão. A ausência na divergência de ideias direciona o foco da opinião pública para rumores e boatos que rapidamente se tornam factos através das redes sociais e que têm transformado o eleitorado numa massa muito confusa, pouco esclarecida, e por isso muito vulnerável à manipulação.

Luís Pedro Branco